Um abraço académico,
Rato Piquet (a viver de raspas de pastel de Tentúgal).
Chamo-me Palito, tenho quatro anos e meio — sim, o meio é muito importante! — e vivo com a minha família numa vivenda super solarenga, plantada em pleno Ribatejo.
Uma rola abriga-se do vento uivante e da chuva batida. Sob o rugido da tempestade, ela não recolhe raminhos reais. Num primeiro momento sonha com viagens intermináveis e encontros brilhantes. Depois, com calma e imaginação, tece um ninho virtual caloroso, seguro e indestrutível.
Seis meses se passaram, rápidos como o vento, e hoje acabou um ciclo repleto de significado. Foi um tempo de profunda aprendizagem, de carinho genuíno e de leituras partilhadas que abriram portas para a imaginação. Juntos, viajámos por páginas e livros cheios de senhores azuis, mas também coloridos com muitas outras cores vibrantes, refletindo a diversidade de tudo o que vivemos.
UM GALO VAI AO MÉDICO!
CENA 1: No Consultório
(O cenário é um consultório com uma cadeira e uma mesa. O Ganimedes entra
com um cachecol de lã enrolado até às orelhas, a caminhar com desconfiança.)
NARRADOR: O Ganimedes está doente. Entra no consultório do Doutor Raposo — um
nome, digamos... pouco recomendável ´do ponto de vista de qualquer galo! O consultório está vazio.
Ganimedes olha para todo o lado e, de repente, vê o público.
GANIMEDES: (Faz uma cara de espanto, com as asas na cabeça) Ei, pessoal! Vocês
vêm todos ao médico? Se for assim, só saio daqui à noite! (Pausa) Esperem lá...
isto é uma escola, não é? Estão todos de castigo ou não têm nada para fazer?
NARRADOR: Entra o doutor veterinário, o mais famoso especialista em pássaros do
Ribatejo e arredores: o Doutor Raposo!
DR. RAPOSO: (Entra com uma pasta) Bom dia. Qual é o seu nome?
GANIMEDES: (Tosse com força) O meu nome é Ganimedes. Foi o meu avô Américo que
escolheu. É o nome da maior lua de Júpiter! O senhor já ouviu falar?
DR. RAPOSO: Já ouvi, sim. É um objeto maior que o planeta Mercúrio. O meu nome é
Raposo. Como está o caro amigo?
GANIMEDES: (Dá um salto para trás) Ouvi... Raposo?!
DR. RAPOSO: Sim, Raposo. Há algum problema?
GANIMEDES: Posso fazer-lhe uma pergunta, senhor doutor? O que é que vai almoçar
hoje?
DR. RAPOSO: Hoje vou fazer uma canja de galinha.
NARRADOR: O nosso galo fica muito preocupado! Leva as asas à cabeça e vira-se
para os meninos na plateia.
GANIMEDES: (Sussurrando para o público) Estou quase cozido! (Para o Doutor) Senhor
doutor... o senhor gosta de canja de galo?
DR. RAPOSO: Não, só gosto de galinha. Vou ver se a água já está a ferver. Aguarde
um pouco. (Sai de cena)
GANIMEDES: (Para a plateia) Já viram isto? Venho ao médico e corro o risco de
cair na panela! Não me digam que vocês também querem um pratinho de canja? Nem pensem nisso!
CENA 2: O Exame Médico
(O Dr. Raposo volta a entrar e aproxima-se do Ganimedes.)
DR. RAPOSO: Reparei que a sua voz parece um pneu a esvaziar. O que se passa?
GANIMEDES: Estou com uma dor de garganta terrível e o meu papo está muito
inchado. É grave senhor doutor?
DR. RAPOSO: (Ajusta os óculos e abre a boca do galo) Ganimedes, diga comigo:
"Cocorocó!"
GANIMEDES: (Com voz rouca) Cococó... cof, cof... pó!en
DR. RAPOSO: Deixe-me apalpar esse papo... (Toca no pescoço do Ganimedes e faz
cara de choque). O seu papo está cheio de... botões, um apito, moedas de dois euros e balões azuis!
GANIMEDES: (Arregala os olhos) Ah! Já me lembro! Ontem houve um concurso de
talentos no galinheiro e eu tentei fazer um truque de magia para impressionar a
Juquinha. Esqueci-me foi da parte de fazer os objetos reaparecerem!
DR. RAPOSO: (Suspira) Tome dois laxantes, vitaminas e, da próxima vez, deite-se
mais cedo. É melhor para a digestão.
GANIMEDES: Sim, senhor doutor.
DR. RAPOSO: Já agora... pode dar-me uma pequena ajudinha? O senhor está com febre, e como estou a
fazer canja... Não tem por aí uma amiga galinha com coragem de entrar na água a
ferver? Que não tenha febre?
GANIMEDES: (Grita desesperado) Fujam para a casa de banho!
NARRADOR: As duas galinhas que estavam à espera abrem a porta e entram a toda a
velocidade, mas o Ganimedes avisa...
GANIMEDES: Fujam do cozinheiro, fujam do Raposo! Escondam-se no meio da plateia!
(O Ganimedes e as galinhas correm para o meio das crianças enquanto o Dr. Raposo
as tenta apanhar de forma atrapalhada.)
TODOS: (Fazem uma vénia) FIM!
UMA VIAGEM SECRETA
O Despertar
Tudo começa com o voo da TAP das 6:20. Para quem tem sono leve, é o despertar.
Para o Ganimedes, o galo que se acha o maior da quinta, é o sinal
para o ritual de beleza: começa por sacudir a caspa noturna das penas, alonga
as patas tipo ioga e sussurra no dialeto secreto das aves: "Malta,
o sol vai nascer e eu não recebo para estar aqui deitado."
As galinhas, que não pensam em estética, mas sim em calorias, saltam do poleiro com o
estomago a dar horas: "Bora lá encher o papo!".
A Viagem
O grupo dirige-se ao buraco na porta. O Ganimedes, que tem mania que é
zelador, odeia aquela falha na segurança, mas como a fechadura não abre
sozinha, lá tem de ser.
Às 6:50 em ponto, com a determinação de quem vai conquistar o mundo o trio
lança-se à aventura.
O Caos no Trânsito
Uma hora depois, temos o momento digno de um filme do canal Disney: A
Travessia da Estrada.
1. A Formação: Fila indiana. Ganimedes na frente,
com o peito inchado e um olhar cheio de ideias.
2. A Atitude: O galo levanta as asas como se
fosse um agente da autoridade.
3. A Reação dos Condutores:
1.
Primeiro: "Ai que
fofinho, as galinhas a passar!"
2.
Segundo: "Dá para
despachar? Tenho aulas às nove!"
3.
Terceiro: Cabeça fora da
janela do carro, gritos e insultos que o Ganimedes ignora com a superioridade
de quem vende confiança.
Enquanto o caos se instala, as galinhas vão comendo pedrinhas pela estrada
fora. Afinal, um ovo com casca de betão não se faz sozinho.
O Mistério: onde raio vão eles?
Chegam ao passeio ilesos, frescos e com aquele ar de quem acabou de ganhar
uma maratona. Agora, a pergunta é: Qual é o destino
deste trio?
·
Opção A: ir ao outro lado para dizer "eu já estive do outro lado da estrada"?
·
Opção B: invadir o
quartel dos bombeiros para testar a sirene?
·
Opção C: ir à estação comprar
bilhete para lugar nenhum?
Qual é o teu palpite? Estou a aceitar apostas (canja como pagamento, não!
Olá, humanos e roedores do meu coração! Daqui fala o Rato Piquet, o Ayrton Senna do esgoto. Por motivos imobiliários, eu durmo debaixo de um...