Notícias do passado - 6
Em certas
estações da alma e do ano, as gaivotas do Tejo desciam sobre a Póvoa, trazendo
o mar na bagagem e uma audácia imperial. Faziam da escola o seu
quartel-general. Muito antes do toque, já tinham montado acampamento nos
telhados dos pavilhões, como sentinelas de olhar afiado, monitorizando com
precisão militar cada migalha de pão, cada abrir de pacote, cada promessa de
açúcar. Eram as verdadeiras donas do recreio.
Quando o
mar de alunos debandava para as salas e o pátio se esvaziava, as grandes asas
abriam-se num rasgar de vento. Desciam para recolher o imposto dos restos. Ali,
a pressa era a lei da sobrevivência: cada dádiva tinha de ser devorada num
piscar de olhos, disputada palmo a palmo com pardais atrevidos e melros que
fingiam não querer a coisa, mas vigiavam de esguelha.
Foi num
desses dias que um rapaz, de mastigação vagarosa e passos dançantes, se deixou
esquecer no pátio. Saboreava a bruma fina do outono, alheio ao tempo. Mas a
paciência de uma gaivota faminta não conhece a poesia do nevoeiro. Num voo
cirúrgico, macio e sem aviso, a ave mergulhou do céu. Num golpe de mestre,
roubou-lhe a sandes — ainda embalada no seu plástico protetor — e, com o troféu
pendurado no bico, ensaiou um adeus elegante.
O rapaz,
num sobressalto de coragem tardia, correu atrás da lenda. Gritou pelo petisco
que lhe escapara por entre os dedos, mas contra as asas do Tejo não há pernas
que valham. Ficou ali, estático, a ver o rasto do assaltante rasgar o nevoeiro
cinzento. Abriu os braços ao silêncio das horas que pararam, numa rendição
poética à audácia da natureza.
Lá dentro, o mundo continuava. E no balcão do bar, com o estômago a reclamar e o peito cheio de uma melancolia cómica, a sua sandes querida — perdida para sempre nos céus de Lisboa — foi humildemente substituída por uma de manteiga. A vida tem destas ironias salgadas.

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