12/08/26

CRÓNICA DE UMA GATA RIBATEJANA

     



Olá, corações que me escutam. Daqui fala-vos a Tica. 

     Transmito a minha voz a partir de uma casa quase esquecida pelo tempo, plantada no coração sereno de uma cidade ribatejana.

     A minha existência corre mansa, como as águas do rio que adivinho ao longe. O mestre destas paredes visita-me duas ou três vezes por semana. Nesses dias, uma alegria imensa e secreta inunda o meu peito. Tenho a pena leve de não lha saber traduzir em gestos, pois ele oferece-me o mundo em forma de carinho, água fresca, petiscos e rações generosas. O meu amor por ele é um silêncio absoluto. Eu simplesmente não o sei dizer.

     Quem me observa de fora, porém, percebe que sou eu quem governa este império de abandono. A minha soberania lê-se na minha postura, no meu pelo de um branco mágico e na forma suave com que abraço as contradições da vida. Carrego uma paz profunda, e faço-o com o maior orgulho.

     Neste meu reino, convivo em perfeita harmonia com os ratos do campo que cruzam o meu caminho. Olhamo-nos de soslaio, fingindo o desconhecimento. É nesse pacto silencioso que partilhamos a água e os manjares que, o meu senhor, nos deixa.

     Por aqui sigo, vigilante e tranquila. Os meus olhos e ouvidos guiam-se pelo compasso dos comboios que rasgam a distância. Sei que é num deles que viaja o meu dono, trazendo consigo as festas que me acalmam e as guloseimas que me adoçam a alma.

     Sejam felizes, com coragem e alegria

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