Olá, corações que me escutam. Daqui fala-vos a Tica.
Transmito a minha voz a partir de uma casa quase esquecida pelo tempo,
plantada no coração sereno de uma cidade ribatejana.
A minha existência corre mansa, como as águas do rio
que adivinho ao longe. O mestre destas paredes visita-me duas ou três vezes por
semana. Nesses dias, uma alegria imensa e secreta inunda o meu peito. Tenho a
pena leve de não lha saber traduzir em gestos, pois ele oferece-me o mundo em
forma de carinho, água fresca, petiscos e rações generosas. O meu amor por ele
é um silêncio absoluto. Eu simplesmente não o sei dizer.
Quem me observa de fora, porém, percebe que sou eu
quem governa este império de abandono. A minha soberania lê-se na minha
postura, no meu pelo de um branco mágico e na forma suave com que abraço as
contradições da vida. Carrego uma paz profunda, e faço-o com o maior orgulho.
Neste meu reino, convivo em perfeita harmonia com os
ratos do campo que cruzam o meu caminho. Olhamo-nos de soslaio, fingindo o
desconhecimento. É nesse pacto silencioso que partilhamos a água e os manjares que,
o meu senhor, nos deixa.
Por aqui sigo, vigilante e tranquila. Os meus olhos e
ouvidos guiam-se pelo compasso dos comboios que rasgam a distância. Sei que é
num deles que viaja o meu dono, trazendo consigo as festas que me acalmam e as
guloseimas que me adoçam a alma.
Sejam felizes, com coragem e alegria
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.