16/10/26

UM FURO , MOMENTOS FELIZES

 Notícias do passado - 7

      Dez minutos depois do toque de saída, os olhos convergiam, magnéticos, para os portões da escola. Uns esfregavam as mãos num contentamento quase primitivo; outros - os poucos infelizes que tinham sacrificado a alma na noite anterior a fazer os trabalhos de casa - olhavam para o teto, questionando as suas escolhas de vida. A esmagadora maioria, contudo, já tinha a mente no auxiliar de ação educativa (ou no depósito do PBX). O objetivo era digno de uma missão militar: resgatar a melhor bola de futebol. Uma que, por milagre divino, estivesse cheia e não exibisse um buraco capaz de engolir um dedo do pé.

      Enquanto o relógio avançava com a crueldade típica do tempo que é bom, ecoava o clássico e trágico lamento: «Daqui a pouco a aula já começou e nós nem suámos!»

      O pátio transformava-se num ecossistema vivo. Havia poesia nos passos dados a pares, segredos sussurrados em trios sob o céu cinzento de outono e a coreografia caótica do jogo das escondidas. Outros procuravam o refúgio sagrado do bar da escola, onde o vapor das torradas em papo secos criava uma névoa de desejo e protegia a pele das manhãs gélidas. Havia uma responsabilidade silenciosa naquela liberdade: ali aprendia-se a negociar a paz, a partilhar o último golo de um sumo de pacote e a respeitar o silêncio sagrado da biblioteca para quem queria, realmente, fugir do barulho.

      Claro que o éden escolar também tinha os seus gladiadores de trazer por casa. Alguns cromos, determinados em não perder o ritmo do rancor, tentavam reatar as picardias do dia anterior. Mas a verdadeira arte acontecia no asfalto debilitado pelas raízes das árvores — uma metáfora perfeita de como a natureza reclama o que é seu. As poças de água acumulavam-se como pequenos oceanos urbanos. E ali, ao som de um Rádio Cassete ou de uma coluna improvisada, iniciava-se o maior drama cómico da juventude: a dança das sapatilhas de marca. Com a precisão de um bailarino e a estupidez de um adolescente, o miúdo que estreava o calçado vindo no dia anterior da loja do shopping acabava invariavelmente a afundar o pé na lama. Um batismo trágico que custaria três dias de castigo em casa.

      No resto do turno? Haveria faltas de comparência na sala de aula, joelhos esfolados e camisolas suadas. Afinal, éramos todos jovens aprendizes do saber, a descobrir que a vida se aprende tanto a olhar para o quadro negro como a saltar poças no recreio.

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