Notícias do passado - 7
Dez minutos depois do toque
de saída, os olhos
convergiam, magnéticos, para os portões da escola. Uns esfregavam as mãos num
contentamento quase primitivo; outros - os poucos infelizes que tinham
sacrificado a alma na noite anterior a fazer os trabalhos de casa - olhavam
para o teto, questionando as suas escolhas de vida. A esmagadora maioria,
contudo, já tinha a mente no auxiliar
de ação educativa (ou no depósito do PBX). O objetivo era digno de uma
missão militar: resgatar a melhor bola de futebol. Uma que, por milagre divino,
estivesse cheia e não exibisse um buraco capaz de engolir um dedo do pé.
Enquanto o relógio avançava com a crueldade típica do
tempo que é bom, ecoava o clássico e trágico lamento: «Daqui a pouco a aula
já começou e nós nem suámos!»
O pátio transformava-se num ecossistema vivo. Havia
poesia nos passos dados a pares, segredos sussurrados em trios sob o céu
cinzento de outono e a coreografia caótica do jogo das escondidas. Outros
procuravam o refúgio sagrado do bar da escola, onde o vapor das torradas em papo secos criava uma névoa de desejo e protegia a pele das manhãs gélidas. Havia uma responsabilidade silenciosa naquela
liberdade: ali aprendia-se a negociar a paz, a partilhar o último golo
de um sumo de pacote e a respeitar o silêncio sagrado da biblioteca para quem
queria, realmente, fugir do barulho.
Claro que o éden escolar também tinha os seus
gladiadores de trazer por casa. Alguns cromos, determinados em não perder o
ritmo do rancor, tentavam reatar as picardias do dia anterior. Mas a verdadeira
arte acontecia no asfalto debilitado pelas raízes das árvores — uma metáfora
perfeita de como a natureza reclama o que é seu. As poças de água acumulavam-se
como pequenos oceanos urbanos. E ali, ao som de um Rádio Cassete ou de
uma coluna improvisada, iniciava-se o maior drama cómico da juventude: a dança das sapatilhas de marca. Com a
precisão de um bailarino e a estupidez de um adolescente, o miúdo que estreava
o calçado vindo no dia anterior da loja do shopping acabava
invariavelmente a afundar o pé na lama. Um batismo trágico que custaria três
dias de castigo em casa.
No resto do turno? Haveria faltas de comparência na sala de aula, joelhos esfolados e camisolas suadas. Afinal, éramos todos jovens aprendizes do saber, a descobrir que a vida se aprende tanto a olhar para o quadro negro como a saltar poças no recreio.

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