05/11/26

POMBO ARZAM EM DESFILE DIVERTIDO


      Bom dia, caros ouvintes! Entramos em novembro num ano que estava a ser quase perfeito... até eu aceitar fazer esta reportagem! Estou em direto do Parque das Nações em Lisboa, onde o sol brilha, o rio sorri e 32 cães decidiram que hoje era o dia ideal para testar os limites do meu sistema nervoso.

      Estou na esplanada De um café perto da Torre Vasco da Gama, o epicentro de uma revolução de caudas a abanar. Os donos tentam desesperadamente segurar as trelas, mas os patudos só pensam em liberdade e, honestamente, em assaltar a vitrine dos bolos. A desorganização deste magnífico evento está a cargo de um corajoso humano que gere o caos apenas com a força do pensamento e reza para que ninguém morda as mesas. Ele já avisou que só bate palmas quando isto acabar e ele ainda tiver as calças intactas!

      No ar, respira-se uma fragrância exótica: uma mistura inesquecível do cheiro a lama da maré baixa com o aroma de um café servido ao preço do ouro líquido. Se o café não me acordar, o cheiro a rio trata do assunto!

      O desfile começou e, senhoras e senhores, isto não é uma marcha, é um concerto de heavy metal canino! Todos ladram ao mesmo tempo. É um festival de decibéis que faz com que a assistência, os pombos e até as estátuas ao redor tapem os ouvidos com as patas, as asas ou as mãos.

      Os truques prometidos começaram agora e o júri já chora de rir! Temos um Bulldog Francês que devia fingir-se de morto, mas preferiu deitar-se de barriga para cima a ressonar que nem um porco-da-índia gigante. Logo a seguir, um Caniche de alta linhagem tentou fazer o truque de dar a pata, falhou o cálculo e aterrou com o focinho diretamente na caneca de cerveja de um cliente! Que pontaria!

      E desfilam todos em fila indiana. Ainda bem, porque a minha cultura visual de raças é nula: para mim, ou é um Pastor Alemão gigante ou é um Serra da Estrela com pelo para fazer três cachecóis. Esperem, o concorrente número 14, um Serra da Estrela colossal, decidiu ignorar o circuito e começou a fazer o truque de "rolar", levando atrás de si três mesas da esplanada, dois guardanapos e o casaco de uma senhora. A assistência está a chorar de rir, as gargalhadas ouvem-se até em Loures!

      Enquanto o público quase se mija a rir com as peripécias, os pardais do parque dão sinais de profunda impaciência. Os meus nobres colegas pombos já começaram a picar nos pardais, culpando-os numa discussão acesa pelo atraso no almoço. É o caos aéreo e terrestre em simultâneo!

      Amigos ouvintes, milagrosamente o desfile terminou sem feridos graves. Agora vigora a lei da recompensa: todos os concorrentes têm direito a festinhas, a descansar à força na esplanada e a valentes nacos de empadas que roubaram das mesas com a perícia de ninjas profissionais.

      Termino esta emissão com as lágrimas a correrem-me pelo rosto de tanto rir e com um abraço caloroso para todos. Se quiserem aproveitar, ainda há empadas de espinafres intactas no balcão. Mas venham depressa, porque um Labrador ali do canto já saltou a cerca e está a fazer olhinhos à funcionária!

      Estúdio, é tudo por agora!

04/11/26

MEMÓRIAS DE UM DIA DIFERENTE – DIA DA ESCOLA

Notícias do passado - 17

Nos primeiros anos deste século, quando os telemóveis ainda tinham botões e a paciência humana era maior, a escola parava um dia para celebrar a sua grande efeméride. Era um dia único: as aulas eram revogadas por decreto da boa disposição e os livros ganhavam vinte e quatro horas de descanso.

A manhã começava com um compasso de solidariedade. Cada aluno que entrava pelo portão trazia um alimento para doar — um ritual onde a generosidade se misturava com o caos organizado. Havia caixas e tendas para separar tudo, geridas por duas turmas de alunos orgulhosamente vestidos com t-shirts oficiais da organização. Estes guardiões dos donativos sofriam da “síndrome de autoridade da t-shirt": apontavam para os caixotes de recolha com a solenidade de quem orienta o tráfego num aeroporto internacional. Em troca de um quilo de arroz ou de uma lata de atum, cada benfeitor recebia um marcador de livros. Era um pequeno pedaço de papel que funcionava como um talismã, desafiando os mais jovens a mergulhar na vida e obra do patrono da escola, alimentando a mente depois de se garantir o sustento do corpo.

Depois, a escola transformava-se num formigueiro de pura poesia em movimento. As salas de aula despiam a seriedade dos testes e vestiam-se de festa. Havia danças onde uns mostravam talento e outros apenas uma enorme coragem em falhar o ritmo, pincéis que coloriam cartolinas e bochechas na mesma proporção, jogos ruidosos e exposições de trabalhos feitos com materiais que iam da cortiça ao plástico reciclado. O riso era a banda sonora que ecoava nos corredores, unindo miúdos e graúdos num abraço invisível.

E assim, entre um passo de dança desalinhado e uma pintura abstrata, a fome apertava e chegava a hora do almoço. A comunidade dispersava-se pelo olival, o verdadeiro coração do convívio. Cada turma escolhia uma sombra, estendia a manta no chão e inaugurava o banquete da partilha. Era o festival do "traz o que tens": sumos de pacotes misteriosos, rissóis rijos que desafiavam a arcada dentária, sandes de panado que sabiam a glória e pacotes de batatas fritas partilhados até à última migalha.

Mais ao lado, a mesa dos crescidos tinha direito a honras de Estado. Ficava instalada debaixo da árvore torta, esta parecia curvar-se de propósito para abençoar aquele que era o recanto mais bonito e cobiçado de todo o espaço.

 Ali, os professores e funcionários esqueciam temporariamente as pautas e os fardos burocráticos.

Embora os pais ficassem à porta - para alívio dos filhos que assim podiam comer de boca cheia sem levar reprimendas -, a Direção da escola fazia a sua ronda real. Passavam de manta em manta, aceitando um rissol aqui, um golo de refrigerante ali, desarmados de qualquer formalidade. Era o momento em que todos se tornavam iguais: o diretor, a contínua, o professor de matemática e o aluno do fundo da sala brindavam juntos à amizade e àquela identidade partilhada.

Quando o sol começava a descer, o dia terminava ali mesmo, com a promessa cumprida de que a escola podia ser uma segunda casa. Pouco a pouco, as mantas eram recolhidas, os sacos do lixo fechados e as vozes iam-se afastando. E, num sussurro suave, o silêncio voltava a espalhar-se pelos cantos daquela bonita escola, guardando nas suas paredes de betão o eco de mais um dia feliz.

03/11/26

CRÓNICAS ALPINAS DA MILKA

      Olá, minhas ricas natas e natos aí de baixo! Espero que a vossa vida esteja a correr sobre rodas, ou melhor, a deslizar sobre chocolate derretido.

      Hoje sou eu, a vossa Milka, a rainha indiscutível do chocolate roxo, que vos fala diretamente do meu trono de pasto, cá nas grandes altitudes. E adivinhem? Estou a ser obrigada a pastar ao som de uma banda sonora ao vivo fornecida por três músicos. Meus amigos, acham isto normal para uma vaca da minha categoria?

      Eu só queria o silêncio do vento a correr pelas escarpas e desfiladeiros para conseguir ruminar em paz, mas o departamento de marketing não dá descanso e contratou este trio. Até são simpáticos, mas o som do acordéon já me está a coalhar o juízo e a guitarra está tão desafinada que até me corta o leite. Para piorar, o gajo da trompa alpina cheira a tabaco. Grande trio! Parece que apanharam os músicos num saldo de fim de estação. Já escrevi uma reclamação formal ao Sindicato das Vacas Leiteiras de Elite, mas a burocracia está mais lenta do que uma lesma na lama.

      Por aqui, continuo à espera da neve para compor o cenário do anúncio, mas por enquanto só se veem lobos e águias com um olhar de quem não come uma bifana há três semanas. Ainda assim, o ambiente é super psicadélico: as plantas passam o dia a abanar-se com o vento, parecem saídas de um festival de verão, e as formigas fazem um chinfrim que mais parece que estão a carregar móveis do IKEA encosta acima.

      Enquanto isto, lá do outro lado do vale, os picos imponentes estão cobertos de neve e as nuvens nascem e desaparecem ao ritmo da minha digestão contínua. É um trabalho duro, mas alguém tem de produzir o cremoso leite alpino para os vossos quadradinhos de chocolate.

      Bem, meus caros ouvintes do microfone, vou ter de desligar. Estão a aproximar-se dois humanos vestidos de branco. Devem ser do controlo de qualidade ou psicólogos de gado, provavelmente para analisar se o meu humor está tão doce quanto o produto final.

      Muitos chocolates cremosos para todos, fiquem bem e tenham bons (e leitosos) sonhos!

02/11/26

AMEAÇA FALSA EM DIA DE NEVOEIRO

          Notícias do passado - 16

      Num outono a sério do final do século vinte, quando o nevoeiro cinzento nos adormecia o cérebro, a escola viveu o seu maior drama.

      Um aluno, sufocado pelo fardo de estudar demais, arquitetou um plano rebelde contra as aulas. A técnica tinha a simplicidade dos mitos: pedia um telefone emprestado, ligava para o PBX e o caos despertava. A sirene chorava nos pátios e éramos todos despejados para um banho forçado de neblina.

      Chegavam as fardas da polícia e o aparato dos bombeiros, mas os cães da brigada estavam, tragicamente, a ver o mar, de férias na Costa da Caparica. Chegavam duas horas depois.

     No coração daquela melancolia climatérica, éramos absurdamente felizes. Se soubéssemos que o tempo passava tão devagar, teríamos levado música para dançar o Bailinho da Madeira sob o manto cinzento e uma camisola para afastar as melgas.

      A cada semana, as ameaças ganhavam um requinte cinematográfico. A pressão subiu, o silêncio foi imposto aos cúmplices e os bolos do bar envelheceram sem comprador - o verdadeiro colapso do nosso pequeno mundo. O autor acabou no tribunal, a responder perante os homens pelo seu crime de liberdade.

      Hoje, ele é pai de dois filhos lindos. Quando nos cruzamos na pressa dos dias, conversamos sobre tudo e sobre nada; mas o tema das falsas ameaças permanece trancado a sete chaves, guardado no cofre inviolável daqueles tempos que voaram depressa demais.

01/11/26

TITA, A ROLA RIBATEJANA

 

      Bom dia, caros ouvintes da rádio! Fala-vos a Tita, a vossa rola de confiança que emite diretamente da Ponte D. Luís I, em Santarém. O meu condomínio é um T2 aconchegante, com uma vista deslumbrante para sul e uma lareira ecológica que funciona com o aquecimento central gerado pelo atrito dos carros. O único problema são os camiões que me fazem tremer as penas às seis da manhã e a renda, que aumentou três minhocas este mês.

      Hoje a nossa emissão em FM foca-se na grande tragédia do nosso querido Rio Tejo. Este ano, o rio está com tanta crise de identidade que no verão os peixes andavam a pedir boleia e agora, em outubro, o caudal parece um fio de esparguete esquecido no prato. Os nuestros hermanos fecham as comportas lá em cima como quem esconde o comando da televisão, e o nosso pobre Tejo chega aqui com menos força do que um pardal a lamber uma pedra de sal.

      Para esticar as asas e esquecer a falta de caudal, faço o meu voo matinal em linha reta até à horta mais sumarenta das redondezas.

      O pequeno-almoço transformou-se num campo de batalha! Antigamente isto era um Ribatejo calmo, mas agora parecemos Almeirim em dia de feira. Quando não sou pisada por um bando de gansos-bravos que aterram como aviões sem travões, sou ultrapassada por bicos-de-maçarico histéricos. E pior: ontem um bando de Garças-boieiras, com aquele ar de quem manda aqui na lezíria, limpou as bagas todas e só me deixou os caroços para roer. Nem os patos-reais respeitam a fila, entram pela horta adentro a grasnar fofocas sobre as cheias do inverno passado.

      O descanso só chega à tarde. Volto para o meu ninho de ervinhas fofas na ponte para dormir a sesta e sonhar com nuvens de mosquitos só para mim. Mas o sossego dura pouco. De um lado passa o comboio regional a apitar, do outro cruza-se, o intercidades cheios de gente apressada que quer ir para Lisboa a guinar os carris. Olho lá para baixo, para a pouca água do Tejo que resta, e vejo um corvo-marinho a boiar, a olhar para mim com cara de quem também precisa de férias.

      Sejam muito felizes, usem protetor solar nas penas e que nunca vos faltem bagas sumarentas, água nas margens e vizinhos que não grasnem antes das dez da manhã!

31/10/26

ESCADAS PARA AS OLIVEIRAS: O MELHOR MIRADOURO

     Notícias do passado - 15

      Fizesse o tempo que fizesse - sob o sol ardente do verão ou a geada cortante das manhãs de inverno -, aquelas escadas bem inclinadas eram o verdadeiro centro do universo. Todos os dias, mal o relógio ditava a trégua das aulas, a escadaria enchia-se de baixo a cima por uma maré de alunos e alunas, numa coreografia perfeita de cotovelos, pastas e risos. Era ali o poiso sagrado. Mas, ai da ordem! Quando a campainha tocava o recolher, a corrida desenfreada para as filas deixava para trás o rasto do crime: as migalhas dos lanches trazidos de casa e uma revoada poética de guardanapos do bar, esvoaçando ao vento como pequenas pombas de papel.

      Aqueles degraus funcionavam como o confessionário oficial e o refúgio dos inconformados. Sentavam-se ali os espíritos livres, sem qualquer disposição para serem enclausurados por mais cinquenta minutos de preleção académica, lado a lado com os tristes sofredores das dores do jovem coração amoroso, que ali curavam os seus primeiros desgostos românticos. Para aquela juventude, o termómetro pouco importava! O que era verdadeiramente excelente era a calorosa companhia dos amigos, a partilha sagrada das sandes, o pânico partilhado com as dúvidas de última hora para os testes e, claro, os comentários maliciosos - mas cheios de charme - sobre quem passava, fosse um professor apressado ou um par mais distraído.

      Era também ali que a música ganhava vida, timidamente, nas colunas portáteis que ecoavam em tom menor, servindo de banda sonora para as mais sublimes audácias: o lançamento preciso e galante de uma baga de árvore, disparada com pontaria de mestre para acertar no casaco de uma rapariga simpática, arrancando-lhe aquele sorriso que iluminava o pátio.

      Por entre a multidão dos degraus, passavam também os atletas desesperados, correndo na procura de uma bola de futebol — que tantas vezes já estava cheia de furos ou mais gasta do que um velho trapo de cozinha. Enquanto uns corriam, outros espreguiçavam-se com a preguiça sublime dos que acordaram cansados. E quando o turbilhão finalmente passava e o silêncio regressava ao pátio, entravam em cena os donos legítimos da escadaria: os pardais da escola, que aterravam mansamente, aguardando a solidão para banquetear-se com os preciosos bocadinhos de pão esquecidos na pressa do saber.

30/10/26

CRÓNICA DE UMA BONITA CABRA CHEIA DE IDEIAS, MUITO DISCIPLINADA (E ROMANTICAMENTE INCOMPREENDIDA)

 

      Dizem que sou dos animais mais gulosos do mundo, que sou uma grande pedinte, que salto bem em comprimento e em altura e que canto bem, mas toda a gente se cansa depressa. Talvez seja um pouco isso, mas sou muito mais que isso. Não sei tocar piano, não bebo água sete vezes por dia, mastigo com a boca aberta, vejo televisão com os olhos abertos, consigo pedir boleia com um truque que alguém me ensinou e consigo evacuar enquanto vou a andar — o que, convenhamos, é uma excelente técnica para despachar encontros românticos que estão a correr mal.

      Vou duas vezes por ano à cabeleireira de ovelhas para manter aquele visual "acordei assim, mas gastei uma fortuna", não pinto as unhas, mas andam sempre pintadas de um vermelho-paixão natural que deixa qualquer bode do parque fechado a balir por mais. Consigo comer caroços de azeitona e o resto não aprecio, exceto quando o assunto é o amor: aí devoro corações com a mesma facilidade com que digiro derivados de oliveira.

      Nasci onde os rios nascem, livre e selvagem, e hoje estou viva em parque fechado. Vendi a minha ideia de liberdade por uma prisão sem pedras, mas com muros altos, com muita relva, que já enjoei, mas sem ervas do campo, o melhor petisco do mundo. É o drama clássico: tenho o luxo, tenho o conforto, tenho pretendentes a saltar a cerca, mas falta-me aquele romance rústico, proibido, proibitivo e com sabor a mato. Falta-me um Romeu caprino que me roube deste relvado gourmet e me leve a jantar uma sesta à sombra de uma giesta.

      Aproveitem para fazer o que gostam, amem intensamente, mas não prejudiquem os que vos olham atravessado por ter ou não as unhas pintadas ou por preferirem um amor caótico a uma vidinha perfeita. Més, més para todos e mais alguns, especialmente para aquele bode charmoso do lote 4. Viva o amor, a loucura e a Rádio Fun ASM.

29/10/26

OLIVEIRAS CENTENÁRIAS: AZEITE PURO

 Notícias do passado - 14

      Corria um ano daqueles de feição mais fustigada, onde o frio e o cinzento teimavam em pintar as manhãs, e os alunos lá iam para as aulas de Formação Cívica. Ditava o protocolo que o Diretor de Turma assumisse a batuta nesses cinquenta minutos regulamentares. Ali, entre quatro paredes enfadonhas, debatiam-se os queixumes do quotidiano e os grandes temas da humanidade, num compasso idêntico a qualquer outra lição de Matemática. Era, contas feitas, apenas mais um intervalo disfarçado de burocracia, onde os bocejos faziam eco na mesma sala de sempre.

      Mas eis que o destino, esse grande mestre-de-obras, bateu à porta com a chegada do outono! Nos ramos das trinta oliveiras que guardam o recinto desta nossa ilustre escola, a azeitona vestiu o seu xaile escuro, anunciando que o seu fado estava traçado: ir parar ao chão e perder-se no esquecimento do pó.

      Valeu-nos a visão patriótica e o estômago previdente de uma Senhora Diretora de Turma! Horrorizada com o desperdício de tão nobre e valioso fruto — pilar da nossa dieta e bálsamo virtuoso para o bem-estar do homem —, a docente lançou um grito de revolta agrícola. Aprovou-se, com a devida vénia do conselho, a mais audaz das operações: mobilizar a mocidade, turma a turma, aproveitando cada nesga de tempo disponível!

      Os dias gélidos daquela estação transformaram-se numa autêntica romaria. Trocaram-se os cadernos pelas sacas e as sebentas pelo varejo poético. A juventude, num ápice, descobriu a felicidade da terra, percebendo no terreno que a verdadeira cidadania se colhe à mão. Da árvore voaram as azeitonas direitinhas ao lagar e, no regresso triunfal, fez-se luz: o ouro líquido chegou engarrafado em frascos de vidro de cinquenta centilitros!

      Diz o boato popular, que corre sussurrado pelos corredores, que lá no canto mais obscuro do armário da Direção ainda repousam algumas dessas relíquias históricas. Completamente fora de prazo, é certo, mas guardando para sempre o perfume daquele outono em que a escola soube a azeite!