02/10/26

PICUINHAS O OURIÇO MAESTRO

      Estamos num século mais à frente, na praça da vila, arrumamos a melancolia a um canto, foi injetado café de outra galáxia nas bicas metálicas de todos os tempos e o Picuinhas vai dirigir os trabalhos sobre este encontro, que se realiza todos os anos, no final do vigésimo mês.

      Liguem os holofotes de néon. Haja música eletrónica épica com batidas de sintetizador futurista em fundo e lancem o microfone flutuante até ao centro do palco. Fiquem com o Picuinhas!

      Picuinha: - Alô, alô, Humanidade e Comunidade Interespécies! Falta-vos ritmo no holograma? Não temam, porque fala o vosso Picuinhas, o ouriço maestro e DJ residente do futuro! Sou o único capaz de organizar o caos e meter esta comunidade a bombar!

      Alguém aumentou o volume da música e ouvem-se megafones de quem está nas varandas já a reclamar para baixar o som. Vamos lá …

      Picuinhas: - Abram as mentes! Hoje o centro da vila transforma-se na maior pista de dança do universo. À volta deste palco? Milhares de animais... que digo eu? Milhões de criaturas a desfilar estilo cybergardunha.

      Picuinha: — Olhem-me para isto: ali junto à casa do Valentim, temos as melgas a afinar os agudos (com autotune, claro!). Mais acima, as osgas controlam o sistema de ar condicionado quântico. E à porta do senhor Manuel Paulo? É a loucura total! Mamíferos convergentes e humanos em simbiose perfeita. Há leões a mandar vir cafés pingados, elefantes a descascar tremoços à velocidade da luz e um macaco cibernético a fazer tatuagens de néon em periquitos monge! As filas são quilométricas e as roupas têm cores que o olho humano nem conseguia processar no século XXI! Na rua do ribeirinho, grandes mesas com toalhas cheias de cheiro de flores de todos os planetas conhecidos, os quais mudam de padrão sempre que alguém diz, como estás.

      Picuinhas: - Sentem o fresco? É a nossa nuvem de água molecular a refrescar o ambiente, enquanto um véu holográfico limpa qualquer pinga de tristeza e a transforma em alegria pura! E agora... quem entra em cena? EU! O maestro ouriço!

      Preparem os capacetes porque vamos viajar no tempo. Tocamos os clássicos e saltamos diretamente para o futuro distante, com a serenidade das eras que ainda estão por vir. E para o grand finale? O clássico dos clássicos: Arlindo de Carvalho na versão remix espacial “O Futuro é de Paz”!

      A música baixa ligeiramente, dando espaço a um eco profundo e inspirador

      Picuinhas: — Deixo o microfone em modo open source. Sintam as notas, sintonizem a vossa frequência e lembrem-se: o mundo é um destino pintado com sentimentos que nos transportam para o infinito...

      Picuinha : — E pimba, já estamos de volta, em direto! Gostaram dos coros desta malta toda? É um privilégio dirigir todos vós! Sintam esse coração livre, o cérebro carregado a 100% de criatividade e prontos para ajudar o próximo! Desçam comigo deste palco flutuante que esconde o repuxo e vamos direitinhos ao meu estúdio para transmitir, via rádio aqui, e em toda a galáxia, as relíquias de há séculos atrás — porque o que é bom, é eterno! Só um aviso de segurança para a pista de dança: cuidado ao abraçarem o maestro, que os meus picos ainda estão em fase de crescimento acelerado!

      Um abraço giga-biónico para todos e espero-vos no amanhã. O futuro não é só paz... é uma festa! Fui!


QUEM SOU EU? O QUE FAÇO AQUI?

01/10/26

VACA OLINDA CAI NO REPUXO DA SOALHEIRA

 

      Caros ouvintes da Rádio Fun ASM! Sintonizem os vossos sentidos, porque as melhores reportagens nascem nos momentos mais inesperados - e quem vos fala é a vossa correspondente de quatro patas, vaca leiteira Olinda diretamente dos relvados verdejantes da Beira Baixa!

      Era uma tarde absolutamente gloriosa. O sol brilhava, as melgas dançavam e lá ia eu, com o meu andar elegante e balançado, na companhia de três grandes amigas. O destino? O "Salão de Beleza da Ordenha"! Aquele lugar mágico onde nos fazem uma massagem vigorosa nos mamilos, levam o leitinho e nos deixam leves, esbeltas e a levitar, sem que a gente perceba patavina do que está em jogo. Um luxo!

      A meio do caminho, como manda o protocolo das vacas de alta sociedade, parámos no famoso repuxo da Vila para hidratar a beleza. Estávamos nós num momento altamente zen, a saborear a água fresca, quando surge um rapazinho a correr, mais enervado do que uma barata numa passadeira vermelha, a gritar: "Fujam! Fujam! Vem aí dezenas de cabras, muito maldispostas!”. E desapareceu.

      Meus amigos, instalou-se o caos coreográfico! As minhas amigas, mais jovens e com o plano de fitness em dia, fizeram uma manobra de esquiva digna de uma fita de ação de Hollywood. Já eu, que ostento curvas muito mais generosas e orgulhosas, baralhei-me com os travões! Virei para a esquerda - pimba, um cão ganiu; guinei para a direita - catrapus, um gato miou; perdi o centro de gravidade e, com a graciosidade de um piano a cair do terceiro andar, fiz o maior e mais espetacular mergulho da história da Soalheira, direto para dentro do repuxo!

      Splaaaaash!

      Bonito serviço! Ali estava eu: água morna pelos quadris, a minha dignidade a boiar e uma plateia digna de um concerto de rock a olhar para mim. Mas acham que uma repórter da minha estirpe se vai abaixo? Nada disso! O otimismo corre-me nas veias! As cabras sumiram-se, como se num pequeno gesto, tivesse mudado o cenário. O silêncio instalou-se e a povo começou a coçar a cabeça, a lançar ideias incríveis, para me tirar dali.

      Sentindo que as minhas patas começavam a falhar, decidi assumir o controlo do meu novo resort aquático. Gritei a plenos pulmões: "Tragam-me uma cadeira, o jornal do dia e um caldeiro bem aviado de sopa de grão com couves e feijões verdes! Não se esqueçam da farinheira!"

      Dito e feito! A população, maravilhada com o meu espírito prático, trouxe tudo. Instalei-me que nem uma rainha, cruzei as patas traseiras, abri as páginas de desporto e desfrutei daquele jacuzzi improvisado como se não houvesse amanhã. Que maravilha de tarde!

      Se passarem pela Soalheira, visitem aquele tanque histórico. Mas digam-me lá, caros ouvintes, com este cenário tão VIP e este banho tão relaxante... Como é que acham que eu saí de lá?

      Despeço-me com um grande e sonoro muuuuú de vitória! De volta aos estúdios da Rádio Fun ASM, a vossa correspondente preferida, diretamente do mais bonito repuxo da Beira Baixa!


30/09/26

MELRO DO BICO AMARELO

      Se ao passar te vejo, o meu dia ganha cor; cantas e não te cansas, estás sempre afinado. Saltas com a leveza de quem humilha qualquer atleta de outra galáxia e voas com a audácia de quem é dono do céu. Se amas esta natureza urbana tanto como eu, que mais posso dizer de ti, criatura magnífica?

      Tu corres e bates em retirada para baixo de um carro como um agente secreto em missão. Encaras ventos e tempestades no ar com asas de coragem, mas o teu verdadeiro segredo é outro: como é que nunca te perdes neste labirinto de betão? Apanho-te tantas vezes no flagrante delito, a comer pão com azeitonas fora de horas, numa ceia clandestina e livre de regras. Há momentos em que o mundo para e somos só nós contra o caos do trânsito — eu aqui sentado no carro a ver o tempo correr e tu, no teu posto de vigia, a controlar as ruas como um segurança reformado.

      A verdade é que hoje já és a alma e a mascote oficial desta cidade; sem o teu caos e a tua melodia, isto seria uma pasmaceira cinzenta e sem metade da piada. Tenho-te um carinho imenso, vizinho. Mas vá lá, quando te fores coçar na borracheira perto da minha janela, faz um favor a este teu amigo: enfia a sirene no bolso, guarda o apito no coração por mais uns instantes e deixa-me dormir, caramba, pelo menos até às oito!

28/09/26

FORMIGAS: OPERAÇÃO "INVERNO SEM STRESS"

Caros ouvintes, o Outono está por aqui e com a descida da temperatura as formigas estão em movimento. O que elas sabem que nós não conseguimos antecipar?

Mergulhem num formigueiro a preparar-se para a chuva e o frio.

1. O Alarme Geral (A Urgência Apareceu do Nada)

·         O Caos: o céu escureceu 0,0002 por cento. Foi o suficiente. A meteorologia decretou o fim do verão.

·         A Linha de Produção: "Vamos todas em carreiro!" grita a Formiga, Cabo Costa, megafone na pata, enquanto empurra uma fila de 250 operárias. Elas marcham coladas rabo-com-cabeça. Se uma trava de repente, há um engarrafamento de proporções planetárias. O objetivo? Organizar o inverno antes que a primeira folha caia e esmague metade do pelotão.

2. O Drama da Mestra (A Mesma Canseira de Sempre)

·         A Ordem Superior: A Mestra (que na verdade é apenas uma formiga que leu um livro de autoajuda sobre gestão de crises) subiu a um topo de um cogumelo.

·         O Discurso: "Minhas filhas, se não recolherem 34 toneladas de açúcar mascavado nos próximos dez minutos, o frio vai-nos congelar as patinhas e morreremos todas de forma dramaticamente fustigante!"

·         A Reação: as operárias choram, limpam as lágrimas com as patas dianteiras e continuam a carregar pedaços de pão que pesam 70 vezes o seu próprio corpo, tudo a pensar na promessa mítica da fartura e do descanso. (nota: O descanso nunca chega, em janeiro há inventário).

 3. Ameaça Biológica: Os Patudos!

·         Alerta Vermelho: "Cuidado com os gigantes peludos de quatro patas!"

·         O Protocolo: O departamento de segurança emite um aviso urgente. Os humanos decidiram levar os patudos a passear "só para dar força às pernas". Para uma formiga, a pata de um Labrador é um asteroide peludo em rota de colisão.

·         A Manobra: sempre que um patudo se aproxima, o comando militar grita: "Estratégia da Fingida de Morta!" — e três mil formigas atiram-se de costas para o chão, com as patinhas para o ar, rezando para não virar pastilha elástica.

4. Conselho dos Anciões (Evitar os Leitos de Cheia)

·         A Reunião: Chamaram os Anciões. Eles são três formigas caducas que se lembram da "Grande Inundação de 2024" (quando um miúdo virou uma garrafa de Sumol no jardim).

·         A Sabedoria: Sentados em cima de uma tampa de garrafa, os anciões discutem:

o    Ancião 1: "Não podemos construir os novos armazéns no leito de cheia!"

o    Ancião 2: "Pois não, da última vez o meu reumatismo nas antenas atacou fortemente."

o    Ancião 3: "Alguém viu o meu dente-de-leão? Estava a mastigá-lo.…"

·         O Resultado: definiram rotas alternativas que passam por dentro de uma sapatilha velha abandonada. É o novo "Silo de Alta Segurança".

5. O Grande Concerto de Inverno (A Loucura dos Clássicos)

·         A Exigência: no meio do pânico das chuvas, a cultura não pode parar! Os meteorologistas avisaram que vai chover, por isso... Música maestro!

·         A Orquestra do Caos:

o    Os violinos (grilos contratados que exigiram pagamento em folhas de menta).

o    As caixas (formigas a bater desesperadamente em sementes de coentros).

o    Os de sopro (três pulgões a fazer sons de corneta).

o    O coro (as operárias a carregar peso enquanto desafinam o hino do formigueiro).

·         O Objetivo: afinar tudo para que o Concerto de Inverno seja uma maravilha inesquecível, ou pelo menos barulhento o suficiente para abafar o som do trovão que as mata de susto.

6. O Encerramento Militar (Viva a Rainha!)

·         A Marcha Final: filas impecáveis. Alinhamento milimétrico. Olhar fixo na meta.

·         O Grito de Guerra: "Ordem rumo ao progresso! Tudo pelo formigueiro!"

·         A Aparição Real: A Rainha acena da sua varanda (uma casca de noz), com uma coroa feita de brilhantes de um vestido de boneca, enquanto come a melhor parte da geleia de morango que roubaram do piquenique. "Trabalhem, minhas queridas, o vosso sacrifício ser-me-á muito útil!"

26/09/26

O VOO SILENCIOSO DAS BORBOLETAS

 

      Eis as borboletas, insetos que desenham o futuro de todos nós. Não habitam o espaço; fundam-no em cada desvio, cruzando silêncios antigos com cores que a terra ainda tenta decifrar. Onde o olhar humano vê fragilidade, reside a engenharia mais perfeita do cosmos: uma arquitetura de luz que sustenta o fôlego de outros mundos.

      Ignoram a arrogância dos muros. Desfazem a ilusão das janelas com a pressa de quem conhece a eternidade. São a geometria sagrada que corrige os nossos enganos mais pesados com a leveza de um pouso. Não há no universo toque mais absoluto do que o beijo que oferecem às flores — uma ternura exata, sem desperdício, que alimenta a própria engrenagem da vida.

      Se o tempo lhes nega as teclas de um piano, a sua própria existência é a sinfonia que os homens passam séculos a tentar traduzir. Descansam na chuva com a dignidade dos soberanos e voam na sombra como se o infinito fosse o seu pátio de recreio.

      Não há voo pequeno. Se uma destas asas sagradas palpita no Japão, a espinha dorsal do planeta curva-se em reverência. A sua ausência não seria um vazio na paisagem; seria a mudez definitiva da beleza. Precisamos da vossa viagem contínua, da vossa harmonia que costura as feridas do mundo.

      Sem vós, seríamos apenas estátuas de argila à espera de um sopro que nunca chegaria.

25/09/26

BOM FIM DE SEMANA


 

UM PINGUIM TAMBÉM SONHA


   Olá, malta da rádio que me ouve a cantar! Sou o Pirolito, o pinguim repórter mais audaz do lugar, vindo diretamente da vossa Rádio Fun ASM para contar um sonho confuso, cómico e profundo. Numa noite de bruma e de abrigo, sonhei que dormia colado a um técnico de som... salvo seja, amigo! Que mistério bizarro da nossa emissora: como fui parar à cama da sonoplastia a essa hora? De repente, o cenário mudou num sopro veloz e dei por mim no mar, enfrentando uma tempestade feroz, com ventos uivantes e chuva grossa a bater na asa, numa aventura marítima bem longe de casa. Deslizando no gelo e quebrando as ondas com fulgor, avistei uma tabuleta que me causou pavor: "Bem-vindos ao Pólo Norte!" dizia o letreiro, e o meu cérebro de pinguim congelou por inteiro!

      "Alto! Para tudo!" gritei ao vento polar, "Eu sou bicho do Sul, que faço eu neste lugar?" Mas o mundo ignorou o meu pânico repentino; a neve caía como açúcar, cobrindo o destino. Não havia pinguins naquele solo, mas sim uma visão bizarra e radical: ursos polares à linha, na pesca do bacalhau! Para animar a festa e espantar o desgosto, decidi que o ballet era o desporto do meu gosto. Fiz piruetas, pliés e saltei com emoção, até que escorreguei e caí com o traseiro no chão! Do céu vinham músicas de uma outra era, trazendo uma frescura de liberdade que o peito acelera. No meio do silêncio que a nevada trazia, apareceu um cão de galochas que por ali residia. Procurava comida com olhar tristonho, e eu tentei entrevistá-lo, pois sou repórter até no sonho! O cão não falava, mas abriu um belo sorriso quando lhe demos uma bolacha Maria para o improviso.

      A solidão começou a pesar nas minhas penas e caminhávamos no manto branco com forças pequenas, quando, do nada, ecoou uma melodia a flutuar: era o Jorge Palma a cantar a "Estrela do Mar"! Uma música que eu nunca ouvira na vida real ecoar. Como? Porquê? O turbilhão de pensamentos deixou-me demente, e PUM! Acordei sobressaltado com o sonho a desfazer-se na mente. Estava sozinho no Pólo Sul, o meu verdadeiro lar, num dia gelado e cheio de sol a brilhar. As nuvens iam esticadas pelo vento que corria na hora, e num cartaz gigante, um pinguim piscou-me o olho cá fora! Que grande lição: nós só existimos no Sul! Cruzar o Equador com aquele calor corria muito mal e eu derretia até ao final. É melhor desfrutar da vida cá em baixo com os amigos, saltos no oceano e os nossos voos supersónicos. Quanto ao operador de som do meu sonho atrevido, não sei quem é, mas o mistério fica bem resolvido!

24/09/26

A GRANDE MUDANÇA DA RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA DO JAVALI TININHO

 

      Rádio Fun ASM, em mais uma emissão selvagem, poderosa e familiar, fiquem com o Tininho, diretamente da Beira Baixa.

      Olá crianças, futuros agentes secretos que sonhais nesta sintonia mágica! Daqui o vosso locutor favorito, o Javali Tininho, a espalhar charme e amor pelas colunas do vosso telemóvel.

      Para vós, a história da minha vida que, verdade seja dita, só tem quatro meses, mas já dava para uma série de TV. Preparem as bochechas para rir, mas mantenham um olho bem aberto, porque o programa de hoje é sobre a Grande Mudança da Minha Família Javali... e os mistérios que a rodeiam!

      Tudo começou numa toca lá no topo da Serra da Gardunha. Éramos quatro irmãos javalizinhos a rebolar na lama, a fazer concursos de puns e a dar beijinhos de focinho o dia todo! Um amor puro e pegajoso.

      Há três dias, o mistério instalou-se. O meu pai — o grande Antão, o chefe de família mais destemido, com o faro mais apurado do universo — olhou para o horizonte de forma dramática. Ele farejou o vento, sintonizou as orelhas como antenas parabólicas e decretou em tom de filme de espionagem: “Família, queimem os arquivos e arrumem a mobília. Vamos trocar de habitação! Rumo ao vale!”

      Por que saímos à pressa? O que sabia o meu pai? Ninguém explicou. E assim fomos, numa caminhada cheia de cantorias desafinadas, tropeções teatrais e a nítida sensação de estarmos a ser seguidos por esquilos com segundas intenções.

      A descida correu bem e ao fim da tarde tivemos direito a um momento digno de um spa de cinco estrelas: um banho refrescante na Praia Fluvial de Castelo Novo, na lindíssima Ribeira de Alpreate! Imaginem a cena: quatro leitões a dar mergulhos de bomba, a espirrar água e a rir à gargalhada, enquanto os meus pais trocavam olhares apaixonados na margem. Ou seriam olhares de código?

      E o jantar? Um verdadeiro banquete gourmet! Encontrámos restos deliciosos junto a um café local. Para nós, aquilo era comida com três estrelas Michelin. Havia restos de uma sandes de fiambre, batatas fritas de pacote e um donut mordido. Barriga cheia festejámos!

      Depois do jantar, continuámos o nosso passeio romântico em família até que… pumba! Batemos de frente com o asfalto. Olhei para a placa e gritei cheio de orgulho: “Soalheira, um quilómetro!”

      O meu pai, que além de corpulento é um poço de sabedoria e teorias da conspiração, testou-me: “Tininho, para onde vai esta estrada?” E eu, armado em GPS da floresta: “Para a Soalheira, meu querido pai!”

      A minha mãe, sempre com aquele coração protetor e cheio de mimo, avisou logo: “Meus amores, devemos ficar aqui, estamos cansados.

      Nisto… ZUMMMM! Aparece um carro minúsculo, um carro branco pequeno, com uns faróis tão fortes que pareciam dois sóis zangados! Ficámos todos tão encadeados e borrados de medo que começámos a chorar em coro: “Buaaa! O monstro da estrada vai-nos capturar e fazer experiências com os nossos rabinhos encaracolados!”

      Para nos protegermos do perigo estranho, fizemos um mega "abraço de grupo" gigante e aninhámo-nos num buraco quentinho, mesmo junto a uma árvore.

      Para acalmar os corações alvoraçados, pedi ao meu pai: “Pai, conta-nos uma história de encantar sobre este sítio para afastar os demónios rodoviários?”

      O meu pai, com aquela voz grave que cura qualquer susto e estabiliza a inflação, começou a contar que o nosso tetravô javali já tinha estado ali há 100 anos, numa missão ultrassecreta! Uma lenda transmitida de geração em geração. E revelou o mapa do tesouro:

      “Se seguirmos esta estrada, encontramos a ribeira. Subimos mais um bocadinho e chegamos aos Barreiros… o paraíso das couves crocantes e dos feijões frades de cara verde!”

      Ouvir a palavra "couves" foi melhor do que ouvir o despertador! Acordámos todos com os olhos a brilhar de fome e amor por raízes! O plano estava traçado: amanhã vamos assaltar (com muito carinho e passos de ninja) os feijões da Tia Vina e as couves da Tia Lela. “Elas vão ficar tão felizes, quando virem as nossas visitas surpresa!”, riu-se o meu pai com uma ironia maravilhosa. Mas quem eram realmente estas tias?

      Nisto, o meu irmão mais pequenino, o Toninho, com a lágrima no olho e o focinho a tremer, choramingou: “Buááá… eu não quero ir aos Barreiros! E se está lá o Noddy ou o Pato Donald? Eu tenho pânico desses gajos! Aquilo não são aves normais, e o outro conduz sem carta!”

      O meu pai, mantendo a postura de psicólogo e agente do FBI, respondeu com a maior serenidade do mundo: “Cala-te, meu amor, podes dormir descansado. Fontes seguras da Administração Interna confirmaram-me que o Noddy e o Pato Donald foram de férias para o Algarve!” Que alívio!

      E com esta revelação bombástica do meu pai, termina a minha crónica desta noite estrelada e cheia de conspirações. Olho para o céu e, pela posição perfeita das Três Marias, da Estrela Polar e daquele satélite esquisito que nos anda a filmar, confirmo: é meia-noite em ponto!

      Durmam bem, amanhã o sol vai nascer para mais um dia de aventuras, mistérios e couves crocantes, lá perto da casa!

      Milhões de beijinhos, com baba amorosa! Pai, desliga a emissão, eles estão a rastrear o sinal!

23/09/26

CANGURU CAJU DE BEM COM A VIDA

      Olá, meu jovem amigo! Prepara o teu coração para uma história cheia de saltos, gargalhadas e um bocadinho de doce loucura. Fecha os olhos e imagina que quem te conta isto é um bicho muito especial, com uma voz quentinha e um sorriso bem maroto.

      Aqui vai:
     Olá, querido ouvinte, tu que medes os teus saltos altos no ar e que às vezes finges ser uma pessoa séria — mas eu sei que, no fundo, tens a alma feita de saltitices! O mundo é mesmo um lugar estranho, mas está cheio de seres vivos absolutamente excelentes!
      Eu moro perto de um jardim verdinho, lá no alto Minho, e aprendi a arte de voar baixinho com o meu pai, que era um professor formidável. Ainda hoje me lembro dele a dizer, com uma voz de trovão carinhoso: "Caju, meu filho, vamos saltar até Espanha para comprar ração, que por lá as sementes e os doces são mais baratos!" E lá ia eu, enfiado na bolsa quentinha da minha mãe, a espreitar os nossos queridos irmãos do outro lado da fronteira, enquanto o vento me despenteava as orelhas.
      O meu pai sempre acreditou, com o coração cheio de orgulho, que eu seria um campeão olímpico. Mas a vida tem os seus próprios caminhos rimados e, um dia, ele descobriu um pequeno detalhe: eu tinha as pernas curtas! Imagina só, um canguru de pernas curtas. Decidiu então treinar-me para ser artista de circo. Mas, ai de mim, não deu certo. Eu não gostava nada daquela comida esquisita e muito menos da disciplina de "levanta cedo e trabalha muito". O meu talento era saltar, não fazer fretes!
      Então, pus as minhas patinhas a pesquisar e descobri o meu verdadeiro destino: ser polícia de trânsito! Tirei o meu curso na Benedita — onde os saltos ganharam regras — e fiz o meu estágio na bonita vila de Sesimbra. Hoje, encontras-me nos principais cruzamentos do país, a saltar bem alto para ajudar os condutores a não se baralharem. E sabes que mais? Sou tão feliz! Custou um bocadinho a descobrir o meu caminho, mas cá estou eu, de bem com a vida e com o coração a pular de alegria.
      Amanhã vou de fim de semana. Para chegar a casa, tenho de saltar uns vinte quilómetros, mas isso, para um par de pernas felizes como as minhas, não é absolutamente nada! Por isso, ouve bem o que te digo: nunca, mas nunca desistas de procurar aquilo em que acreditas. O teu caminho pode ter curvas, mas tem sempre uma meta bonita à espera.
      Por fim, deixo-te mais um conselho de amigo: desejo-te, do fundo do coração, que não tenhas de trabalhar muito tempo ao sol, pois corres o risco de ficar demasiado bronzeado. Olha para mim: pintei o meu corpo todo de branco! Assim, os raios de sol batem e refletem para longe. É que, se apanho muito calor na cabeça, os meus pensamentos evaporam-se e eu perco logo a memória!
Se me encontrares vestido de polícia, fala comigo para irmos comer salada de ervas.

22/09/26

OSGA SISSI PERDE A CAUDA NUMA LUTA AO FIM DO DIA

     

      Sissi é meu nome. Sou uma osga com alguma idade. Olá meninas e meninos vou contar uma história. Espero que gostem!

      Neste verão, montei o meu palacete numa casa abandonada. À noite, o meu "clube noturno" privado é junto ao candeeiro. Ali faço a minha dieta à base de mosquitos (uma iguaria melhor que qualquer restaurante de luxo!). Mas hoje trago-vos um poema-desabafo sobre uma noite que começou em banquete e acabou em tragédia grega por causa de umas sobras de festa.
O Baile da Saudade
O tempo está quente, o ar cheira a jasmim,
Relembro os piqueniques que outrora vivi,
Quando era uma osguinha, correndo no jardim,
E o mundo era um doce que eu nunca esqueci.
Hoje o tempo mudou, a cortina desceu,
Vou ao fim da festa, quando a noite é já fria,
Até a formiga para a toca correu,
Mas no meu peito idoso ainda mora a alegria.
      Por mais que limpem o chão do quintal, há sempre um milagre. Uma migalha de pão, um doce esquecido ou um pedacinho de queijo que me faz salivar. Estava eu toda radiante, abraçada ao meu grande achado com o amor de quem encontra a sua alma gémea em forma de lanche, quando o destino decidiu pregar-me uma partida.
O Encontro de Titãs
      De repente, vinda do nada, surge ela. Uma sardanisca com uns impressionantes 30 cm de envergadura e perto de meio quilo de pura "sabedoria aparente" (e muito caparro!). Olhou para a minha fatia de pão com olhos de vilã de novela e atirou-se a ela como se não houvesse amanhã.
      Entrámos numa luta daquelas, à antiga! Parecíamos duas ninjas em câmara lenta, mas o carma é tramado: as duas perdemos com a brincadeira. Com o susto e a pancadaria, deixámos ficar os nossos dois rabos no chão a saltitar sozinhos, numa dança do ventre improvisada e macabra, enquanto nós fugíamos sem retaguarda. Agora? Olhamos uma para a outra e os nossos olhos não param de chorar (de dor e de vergonha!).
      É triste. Tinha sido um dia tão bonito, o céu cheio de aves a voar, tudo em paz... e depois da festa, o drama total de ficarmos sem cauda por causa de um bocado de glúten.
O Pacto do Rabo Curto
      Ficámos profundamente arrependidas. Se tivéssemos usado a palavra em vez da cauda, podíamos ter evitado este espetáculo lamentável. Olhei para ela, ela olhou para mim, e o amor ao próximo falou mais alto. Duas desrabadas unidas pela dor.
      Lá limpámos as feridas uma da outra, dividimos a fatia de pão (que afinal chegava bem para as duas) e definimos as regras para o futuro. Para selar esta nova e eterna amizade, passámos o resto da madrugada a cantar as bandas sonoras daqueles filmes que nos fazem chorar: músicas sobre altruísmo, união e respeito.
     Afinal, os rabos voltam a crescer, mas uma boa amiga de petiscos é para a vida inteira!
    Ouvintes da rádio tenham excelentes dias em paz e com muito amor ao próximo.