11/08/26

ARÉLIO O PARDAL DESTEMIDO

 


Olá daqui fala o Arélio, um pardal às vossas ordens.

Envio cumprimentos a todos os que nos ouvem neste verão cheio de calor para ir a banhos. Pediram-me para divagar sobre um dia na minha vida.

Moro numa cidade simpática onde as pessoas são muito fixes e muito forretas e onde há imensa água para fazer tudo a que temos direito.

Levanto-me muito cedo e como durmo só com um olho fechado assisto todos os dias ao nascer do sol. E aí começa a muinha procura de alimento. É à volta desta necessidade que se faz o meu dia. De manhã, voo entre as entradas dos hotéis e estações de comboio e pela hora de almoço são as explanadas dos jardins. Fico com os meus amigos num ramo de árvore e aguardo serenamente que os clientes arrumem as cadeiras e sigam à sua vida. Depois é fazer um voo rasante, silencioso, e picar em tudo o que ficou. O meu petisco preferido são os miolos de bolos e as migalhas de pão, "não dão trabalho a mastigar".  Não partimos loiça nem chateamos ninguém, são ataques tipo relâmpago que só um olhar atento nota.

Durmo num ramo de uma árvore ou num recanto de um jardim, depende do vento e da temperatura. Detesto que me abanem durante a noite porque complicam o desenvolvimento dos meus sonhos para o dia seguinte.

A minha força está nos meus colegas de bando, todos juntos fazemos a diferença.

09/08/26

A AVENTURA DE JIMVALI E O CAVALO SALVADOR


   Original de Ana Margarida Matos

  Jimvali é um javali pequenino e muito curioso que adora passar as tardes sentado perto dos carris do comboio. Para ele, as carruagens coloridas dos comboios são um desfile de monstros barulhentos e velozes. Ele bate palmas com as patas e tenta contar os vagões, rindo e abanando o rabo sempre que os comboios passam.

     Certo dia, após a passagem de uma composição, Jimvali sentiu-se cansado de tanta agitação. À procura de conforto, ele decidiu deitar-se a dormir uma soneca mesmo no meio da linha, onde as pedras estavam mornas por causa do sol. Alheio ao perigo, o javali adormeceu profundamente e começou a ressonar baixinho.

     Por sorte, um cavalo que pastava ali perto reparou na situação perigosa. Para evitar uma tragédia, o cavalo enche o peito de ar e solta um assobio tão agudo e estridente que ecoa por todo o vale. Jimvali acorda num salto, assustado e com os olhos muito abertos.

     Ao perceber que o cavalo tinha acabado de salvar a sua vida, o susto do pequeno javali transformou-se em gratidão. Jimvali correu até ele, dá-lhe uns toques nas pernas com ternura e esfrega o focinho nas suas patas. O cavalo responde com um relincho suave. Desde esse dia, tornaram-se grandes amigos e continuam a ver os comboios passar, mas agora sempre guardam uma distância segura com a estrada dos comboios.


08/08/26

UMA ATRIZ CHAMADA RAINHA

Desenho original de Ana Margarida Matos

Bom dia caros ouvintes da rádio ASM

É com imenso prazer que respondo ao convite da diretora da vossa emissora para vos falar um pouco de mim. Como sou atriz nas horas vagas, respondo declamando no acaso, espero que apreciem. Se quiserem reclamar mudem de emissora.

(Rainha foca-se o no palco. É tudo muito misterioso!)

Sou a Aranha Rainha, tecelã do silêncio e do alecrim. No meu quintal sem tempo, durmo e luto sob o manto divino.

(Estende os braços para o vazio)

Fio a fio, crio autoestradas de prata. Tu desfilas na minha pista, perdido num mar de cores e ilusão. Convoquei camelos, apareceram gatos! Invoquei bandolins, enviaram harpas e pedi turbantes e vieram véus azuis claros para fortalecer o engano! E tudo deu certo, bate sempre certo!

Olha as flores suspensas... e numa fração de segundo, o teu sopro de vida imobiliza-se no meu abraço eterno. Perdes a energia e o final da história … se calhar merecias mais!

Agradeço a vossa atenção,

Até outro dia.


07/08/26

OS LOOPINGS DA MOSCA EMPADA

 



Alô, rádio ouvintes! 

     Daqui fala a Mosca Empada, a Julieta das marquises. Vivo num primeiro andar fazendo acrobacias grátis para impressionar o dono do pedaço: um estudante lindo de cabelo preto.

     Eu navegava em sonhos, luzes coloridas e cadeiras de praia, mas ele só ligava aos livros. Chorei ao som dos aviões que carregavam milhões de primas minhas pelo céu. A vida perfeita não existia porque ele me ignorava.

     Até que o milagre aconteceu! O meu estudante finalmente notou os meus loopings sedutores. O romance estava no ar. Ele sorriu, levantou-se e aproximou-se com uma raquete elétrica que brilha no escuro.

     Foi um choque de paixão. Agora sou uma mosca iluminada, com o coração a estalar. O amor é mesmo uma brasa!

06/08/26

FUGA QUASE IMPOSSÍVEL

imagem da net

Olá, humanos e roedores do meu coração!
Daqui fala o Rato Piquet, o Ayrton Senna do esgoto. Por motivos imobiliários, eu durmo debaixo de uma pedra. O problema é que no teto do meu T0 descansa a Gata Catita, uma psicopata com o único objetivo de me transformar em snack.
Estava no terceiro sono quando um humano decidiu fazer obras e levantou a pedra. Cego pelo sol e em pânico total, dei um salto olímpico e aterrei direto em cima da gata. A Catita tentou cravar-me as garras, mas só apanhou a cauda. Corri, montei-me na minha trotinete turbinada e lancei-me à estrada. Passei o nó de Torres Novas a dar corda aos sapatos, ignorei a Via Verde na A1 e só parei em Coimbra.
Fui à procura do meu primo, o Ratão Chefe, mas ele estava de folga. Desesperado e com a cauda a latejar, um rato sem-abrigo mandou-me para o Mondego. Aquilo parecia o SNS dos roedores: um rato filósofo deu-me uma palestra motivacional de duas horas e, enquanto eu estava distraído, um enfermeiro deu-me um nó cego na cauda. Remédio santo.
Moral da história: hoje sou um refugiado político na Cidade dos Estudantes. Não volto ao Ribatejo porque a Catita espera-me com garfo e faca.
Fiquem com um olho no buraco e outro no gato.
Um abraço académico,
Rato Piquet (a viver de raspas de pastel de Tentúgal).

05/08/26

PALITO, O CEGONHO QUE NÃO VAI DE FÉRIAS

   

Palito em direto na Rádio Fun ASM
      Chamo-me Palito, tenho quatro anos e meio — e ai de quem se esqueça desse "meio", que é onde reside toda a minha sabedoria! — e sou o CEO, xerife e segurança privado de uma vivenda super solarenga no Ribatejo.
      Enquanto a humanidade foi de férias, eu fiquei por cá a fazer o papel de "Guarda Real" deste palácio. O resto da família Palito? Andam por aí em modo turista radical: a entupir a memória do telemóvel com mil fotografias e a caçar petiscos como se fossem piratas do Ribatejo!
       Agora, preparem-se para a revelação do ano: nós não temos ar condicionado nem aquecimento central. Drama? Lágrimas? Nada disso!
      No verão a ferver (estilo deserto do Saara): Nós não suamos, nós brilhamos
      No inverno a congelar (estilo Polo Norte): A nossa solução científica é apertarmo-nos todos como sardinhas em lata picante e gritar: — VIVA A NOSSA CASA!  É um método infalível: o barulho é tão ensurdecedor que o termómetro apanha um susto e o frio foge a correr de medo!
      E o meu momento favorito do dia é quando o vento decide fazer uma birra digna de uma criança de dois anos e sopra com força... Olhem, ativamos o "Plano de Emergência Palito": corremos todos lá abaixo e agarramo-nos ao poste com unhas, dentes e supercola!
      É que se o poste foge... puf! Adeus, casinha! Já imaginaram a nossa casa a voar pelos céus de Portugal como um balão gigante de festa de anos? Eu a acenar aos aviões lá de cima? Iam ser umas férias bem baratas!
      Foi um privilégio absoluto participar no programa e mostrar como somos felizes na nossa loucura. Um abraço gigante e apertado para todos (para aquecer)! 

03/07/26

ALGO FRESCO NUM DIA DE CALOR



Uma rola abriga-se do vento uivante e da chuva batida. Sob o rugido da tempestade, ela não recolhe raminhos reais. Num primeiro momento sonha com viagens intermináveis e encontros brilhantes. Depois, com calma e imaginação, tece um ninho virtual caloroso, seguro e indestrutível.