Olá ouvintes hoje temos uma intervenção do nosso enviado especial à Soalheira, terra de bons queijos e de muitos sapateiros.
Fiquem com Deny um cão da cidade em direto na nossa antena:
Dizem que o ar da montanha cura tudo, mas eu acho que o que cura mesmo é a ausência de trelas e de humanos a gritar "Sai daí!" a cada cinco minutos. Escrevo-vos esta crónica diretamente da Soalheira, onde me encontro atualmente em modo "retiro espiritual e gastronómico". O balanço dos primeiros dias resume-se de forma simples: estou excelente.
A rotina aqui é dura. Acordo, bebo água pura da fonte (esqueçam as tigelas da cidade, aqui só aceito serviço em copo de esmalte) e passo o resto do dia a boiar em oxigénio, a apanhar sol e a esticar as pernas até onde a minha liberdade me deixar levar.
Mas desengane-se quem pensa que a vida de um cão da cidade em férias é fácil. Tenho sido assolado por uma crise de identidade profunda: afinal, o meu nome escreve-se com um ou dois "n"? "Deny" ou "Denny"? Esta dúvida existencial consome-me as energias e deixa-me profundamente pensativo. Pelo menos até ao momento em que me passa um rival ou uma cadela jeitosa pelos olhos. Aí, meus amigos, o dilema dos "enes" desaparece e o cão da cidade transforma-se num autêntico leão da montanha. O romantismo e o instinto territorial falam mais alto.
Como sou um cão bem-educado e as minhas boas maneiras já são atestadas por todos os habitantes da vila, a minha fama começou a circular. Tanto que fui convidado para uma entrevista exclusiva com a maior celebridade local: o Piruças. Para quem não conhece, o Piruças é um gato com uma paz de espírito invejável, que ladra (um bilinguismo admirável) e, por algum motivo que ainda estou a tentar decifrar, fala sueco.
A entrevista correu muito bem, num clima de respeito mútuo. Quando ele me perguntou se eu tinha algo contra felinos, fui sincero: "Nada contra, desde que me respeitem. Com alguns, pronto, tive de dar umas trincas no rabo para estabelecer limites, nada mais que coisas de jovens."
Falámos de gastronomia, onde fiz questão de elogiar a iguaria local — a côdea de queijo da Soalheira combinada com umas ervas do terreiro de S. António — e deixei no ar o meu caderno de encargos para melhorar o turismo da vila. Se alguém me quiser ouvir cá vão as minhas ideias, a Soalheira precisa urgentemente de:
- Mais postes (a gestão de marcação de território está caótica);
- Música ambiente (acordéons e violinos afinados) nas ruas (um cão precisa de abanar o capacete para descontrair);
- Obrigatório os peões circularem em todos os sentidos, só ir ao pão não conta;
- E, já agora, deviam fazer obras para trazer o rio Tejo até aqui. Não custa nada pedir.
Confesso que isto da vida pública e das conferências de imprensa é desgastante. Sendo a minha primeira entrevista, o nervosismo ainda deu cabo de mim. Termino esta crónica a sentir-me bastante cansado, por isso vou ali ferrar o dente numa côdea e dormir uma sesta à sombra da Junta de Freguesia.
Até à próxima crónica, amigos! Comam queijo da Soalheira que faz muito bem, mas não abusem.
A SOALHEIRA AGUARDA A VOSSA VISITA:
O que dizem os nossos embaixadores locais:
"Uma experiência de cinco estrelas! A água da fonte servida em copo de esmalte e a liberdade para abanar o rabo e o capacete pelas ruas limpas fazem deste o melhor local do mundo para passar férias."
— Deny, Cão da Cidade & Crítico de Viagens.
"Perfeito para quem aprecia o conceito de silêncio e sestas ao sol. Um destino verdadeiramente PERFEITO' (muito bom)."
— Piruças, Gato Residente & Mediador Cultural.
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