20/10/26

A DITADURA DAS BOLAS


Notícias antigas - 10

Olá escola ASM, boa tarde!

Vocês lembram-se de como a bola era o centro do universo na escola? A escola tentava ensinar-nos valores liberais, "jogar com o coração e respeito"... Mas a verdade é que o recreio era uma selva. Havia sempre dois tipos de miúdos: os que jogavam à bola com respeito, e os que andavam em "escolas especializadas" de futebol.

Que basicamente é a escolinha de futebol do bairro, onde o plano curricular consiste em: Introdução ao Palavrão I, Técnicas Avançadas de Rasteira e Como Fazer o Teu Colega Perder a Cabeça e Chorar Pela Mãe.


O meu grande sonho não era ser o Cristiano Ronaldo. Eu tinha um objetivo muito mais humilde: eu só queria jogar. Tocar na bola sem que me passassem por cima. Mas o verdadeiro desporto nacional da minha infância não era o futebol. Era "tirar a bola de cima do telhado".


Havia sempre um pontapé atómico que mandava a bola para a estratosfera. E aí a dinâmica da escola mudava. Entrávamos em modo de gestão de crise.


Em situações normais, o protocolo era simples: chamava-se o Senhor José. Ele ainda é o funcionário da escola que tem um objeto superpoderoso mais valioso da galáxia: uma escada.

O Senhor José subia lá acima com a calma de um monge, devolvia a bola e a paz mundial regressava ao recreio. O Senhor José era o nosso capacete azul da ONU.


O problema era quando o Senhor José estava a almoçar. Aí o cérebro do pessoal entrava em curto-circuito. Ativava-se o protocolo de "Situações Extremas". Como é que se tira uma bola do telhado? Mandando coisas contra ela, obviamente.

Começava com um sapato. O sapato ficava preso. O que é que fazes a seguir? Mandas o outro sapato! Ficas descalço na lama. A partir daí, era o vale-tudo. Valia mandar a lancheira com o almoço — que abria a meio caminho e espalhava arroz de pato pelas telhas.

Havia sempre um miúdo mais radical que tentava mandar a prótese dentária do avô que tinha levado para a escola para impressionar os amigos. A meio do recreio tinhas um telhado que parecia um aterro sanitário e um grupo de miúdos a olhar para cima a gritar: "Ó Bruno, manda os teus óculos a ver se bate na lancheira que bate no sapato que liberta a bola!"


Chovesse ou fizesse sol, o vício era tanto que nós jogávamos em qualquer lado. Se olharem para as paredes dos blocos daquelas escolas antigas, estão cheias de marcas pretas dos remates. A escola chama-lhe "vandalismo".

Para nós são medalhas. São os registos fósseis de uma época em que a gente quase morria à fome porque o nosso almoço tinha ficado confiscado no telhado do Bloco 3.


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