Notícias antigas - 10
Olá escola ASM, boa tarde!
Vocês lembram-se de como a bola era o centro do
universo na escola? A escola tentava ensinar-nos valores liberais, "jogar
com o coração e respeito"... Mas a verdade é que o recreio era uma selva.
Havia sempre dois tipos de miúdos: os que jogavam à bola com respeito, e os que
andavam em "escolas especializadas" de futebol.
Que basicamente é a escolinha de
futebol do bairro, onde o plano curricular consiste em: Introdução ao Palavrão
I, Técnicas Avançadas de Rasteira e Como Fazer o Teu Colega Perder a Cabeça e
Chorar Pela Mãe.
O meu grande sonho não era ser o
Cristiano Ronaldo. Eu tinha um objetivo muito mais humilde: eu só queria jogar.
Tocar na bola sem que me passassem por cima. Mas o verdadeiro desporto nacional
da minha infância não era o futebol. Era "tirar a bola de cima do
telhado".
Havia sempre um pontapé atómico que
mandava a bola para a estratosfera. E aí a dinâmica da escola mudava. Entrávamos
em modo de gestão de crise.
Em situações normais, o protocolo
era simples: chamava-se o Senhor José. Ele ainda é o funcionário da escola que
tem um objeto superpoderoso mais valioso da galáxia: uma escada.
O Senhor José subia lá acima com a calma de um monge, devolvia a bola e a paz
mundial regressava ao recreio. O Senhor José era o nosso capacete azul da ONU.
O problema era quando o Senhor José estava a almoçar. Aí o cérebro do pessoal
entrava em curto-circuito. Ativava-se o protocolo de "Situações
Extremas". Como é que se tira uma bola do telhado? Mandando coisas contra
ela, obviamente.
Começava com um sapato. O sapato ficava preso. O que é que fazes a seguir?
Mandas o outro sapato! Ficas descalço na lama. A partir daí, era o vale-tudo.
Valia mandar a lancheira com o almoço — que abria a meio caminho e espalhava
arroz de pato pelas telhas.
Havia sempre um miúdo mais radical que tentava mandar a prótese dentária do avô
que tinha levado para a escola para impressionar os amigos. A meio do recreio
tinhas um telhado que parecia um aterro sanitário e um grupo de miúdos a olhar
para cima a gritar: "Ó Bruno, manda os teus óculos a ver se bate na
lancheira que bate no sapato que liberta a bola!"
Chovesse ou fizesse sol, o vício era tanto que nós jogávamos em qualquer lado.
Se olharem para as paredes dos blocos daquelas escolas antigas, estão cheias de
marcas pretas dos remates. A escola chama-lhe "vandalismo".
Para nós são medalhas. São os registos fósseis de uma época em que a gente
quase morria à fome porque o nosso almoço tinha ficado confiscado no telhado do
Bloco 3.

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