Notícias do passado - 3
Sejamos honestos: ninguém se lembra da fórmula da
fotossíntese ou da rota exata de Vasco da Gama. A verdadeira enciclopédia da
nossa juventude foi escrita com os pés encharcados em poças de chuva, em fugas
estratégicas para baixo da mesa de ping-pong e em suspiros profundos dirigidos
a ramos verdes, onde o tempo teimava em não passar.
Olhávamos para as árvores no pátio como quem consulta
o relógio, esperando pelo milagre botânico que salvasse a primavera.
E então, no terceiro período, a magia acontecia. Quase
por decreto divino, a nêspera veste-se de gala. Em escassos três dias, passa do
verde-tímido ao amarelo-ostentação, brilhando com o orvalho matinal como se
fossem pepitas de ouro penduradas no recreio.
É nesta altura que o pátio da escola se transforma num
mercado de Wall Street da fruta. Surgia sempre um "especialista" autointitulado
— um miúdo que jurava ter uma licenciatura honoris causa tirada na quinta do
avô, ou um veterano do 9.º ano com um doutoramento em "artes de colheita
clandestina". Eles dominavam a informação, sabiam qual era o ramo mais
doce e controlavam o mercado negro da vitamina C.
Subir às árvores? Um crime federal punido com a ira do
contínuo da escola. Mas a evolução humana deu-nos uma arma secreta: aquele
amigo estrategicamente dotado de braços telescópicos. Segui-lo era um dever
cívico. Num intervalo de meros dez minutos — entre o toque da campainha e a
ameaça de falta de material —, operava-se o milagre de enfardar uma dúzia de
nêsperas das grandes. Uma velocidade de deglutição que faria inveja a qualquer
predador da savana.
Onde param os caroços? Cada um responderá perante a
sua própria consciência (e as regras de higiene do estabelecimento). Mas eu,
munido de uma visão de futuro digna de um grande investidor, semeei os meus num
canteiro esquecido.
Não foi vandalismo, foi poesia aplicada à agricultura. Fi-lo para que o amanhã seja mais doce, e para que os golpistas do futuro tenham nespereiras de sobra para assaltar.

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