Sou a vossa Sorrá,
a melga mais audiófila do planeta! Imaginem que dei a volta a Portugal
inteirinho só para gamar... quer dizer, adquirir esta aparelhagem topo
de gama. Só assim consigo estar em emissão e relatar a minha vida de alto voo!
Hoje o drama é real. Estou sequestrada no quarto de
uma adolescente feliz que bateu a asa para parte incerta. O meu dilema? Canto o
meu clássico e irresistível "Bzzzz, bzzz, bzzz..." no ouvido
dela? Não posso. A porta está trancada e o gato Tinto — a minha vítima favorita para uma sessão gratuita de
acupuntura — não aparece para a dose diária de ferrão. Malta, o nível de
bateria do meu estômago está a zeros. Sem o sangue quente de um mamífero
fofinho, a minha gastronomia gourmet está arruinada!
Para não chorar, vou tendo delírios musicais. Canto à
bossa nova "Et si tu n'existais pas" e choro com o Tony de
Matos a gritar "Oh tempo, volta para trás!". Que saudades do
pico da hora de ponta! Aquilo é que era um buffet self-service: uma
picadela num braço suado aqui, um tornozelo apetitoso ali... A vida era
simples, era um autêntico hino à alegria!
Parem tudo! A porta acabou de se escancarar com
a força de um furacão! Não é a miúda, não é o gato... é o Inverno que entrou de rompante! Que
gelo, meus amigos!
Agora tenho dois problemas: a ameaça de hipotermia nas
asas e a falta de pequeno-almoço. Mas
meu Deus, que cheiro a ar puro!
Inalei este vento fresco com aroma a relva molhada e
terra batida, e sinto-me viva! Viva o vento, viva a ventilação e viva toda a
gente que deixa as janelas abertas para salvar melgas incompreendidas! O frio
aperta, mas a minha esperança é rija.
Despeço-me com o coração cheio de otimismo. Vou ali
fazer um briefing com as moscas e ver se os bichos-de-conta alinham numa
rave. Mantenham-se nesta frequência que o próximo voo vai ser épico!
Adeus, amigos! Bzzzzzz!

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