Notícias do passado - 9
Meio-dia em
ponto. O ar do fim da manhã desperta o apetite e o estômago reclama. Lá vêm eles, de
cartão na mão e olhos brilhantes, atraídos pelo aroma divino daquela que é, sem
rival, a melhor cozinheira do Ribatejo e arredores: a nossa D. Maria do Céu.
Alinhados em
cinco filas paralelas, o caos tenta disfarçar-se de ordem. É um tabuleiro de
xadrez humano onde se ouve o clássico eco dos rituais diários:
- Fica aí que já venho!
- Guarda-me o lugar!
- Professor, quando é que isto começa?
Entram em
cena os poetas do desenrasque e os mestres do drama:
- Olha, o meu amigo guardou-me o lugar! — diz o corajoso, com a cara mais
lavada do mundo.
- Não me faça isso, por amor de Deus, que o meu autocarro passa daqui a dez
minutos! - implora o apressado, numa corrida contra o tempo e contra a fome.
E claro,
nunca falham os atletas do "fura-linhas". Verdadeiros profissionais
do atraso, com olhos de lince, ziguezagueando subtilmente de linha em linha.
Esperam apenas pelo sinal sagrado: “Fila da frente!”. Nesse instante, avançam
como se fossem os primeiros da fila desde o amanhecer.
Mas a fila
também é lugar de carinho, compaixão e uma pitada de astúcia protetora:
- Cheguei tarde, posso entrar?
- Com certeza! Ninguém fica aqui com dor de cabeça. Anda daí!
E logo se levanta a voz solidária para abrir caminho na multidão:
- Pessoal, abram alas! Esta rapariga está indisposta, tem de entrar já senão
desmaia! Podes seguir, menina.
Até os atletas cansados têm passe direto no coração da gerência:
- Estive nos torneios e só cheguei agora, posso entrar?
- Com certeza, campeão! Avança para a fila da frente e bom apetite!
Por fim, no
fim da linha de montagem da malandrice, chegam os cromos mais deliciosos do
recreio. Sorrateiros, finórios, malandrecos por natureza. Caminham nas pontas
dos pés, tentando passar invisíveis aos olhos do mundo, exibindo com orgulho um
ar de quem já tirou uma licenciatura com distinção na nobre arte de passar à
frente de todos. Bolas vermelhos? Que é isso?
Assim se escreve, todos os dias, este enredo
delicioso. Entre furas, desculpas e gargalhadas, a estratégia varia, mas o
destino é o mesmo. E quando os trezentos guerreiros terminam a sua jornada e o
último prato é servido, a paz regressa finalmente ao recreio. Afinal, a poesia
da vida é simples: de barriga cheia, o mundo é um lugar muito melhor.

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