19/10/26

O TEATRO DA FILA DO ALMOÇO

 

  Notícias do passado - 9

     Meio-dia em ponto. O ar do fim da manhã desperta o apetite e o estômago reclama. Lá vêm eles, de cartão na mão e olhos brilhantes, atraídos pelo aroma divino daquela que é, sem rival, a melhor cozinheira do Ribatejo e arredores: a nossa D. Maria do Céu.

      Alinhados em cinco filas paralelas, o caos tenta disfarçar-se de ordem. É um tabuleiro de xadrez humano onde se ouve o clássico eco dos rituais diários:
- Fica aí que já venho!
- Guarda-me o lugar!
- Professor, quando é que isto começa?

      Entram em cena os poetas do desenrasque e os mestres do drama:
- Olha, o meu amigo guardou-me o lugar! — diz o corajoso, com a cara mais lavada do mundo.
- Não me faça isso, por amor de Deus, que o meu autocarro passa daqui a dez minutos! - implora o apressado, numa corrida contra o tempo e contra a fome.

      E claro, nunca falham os atletas do "fura-linhas". Verdadeiros profissionais do atraso, com olhos de lince, ziguezagueando subtilmente de linha em linha. Esperam apenas pelo sinal sagrado: “Fila da frente!”. Nesse instante, avançam como se fossem os primeiros da fila desde o amanhecer.

      Mas a fila também é lugar de carinho, compaixão e uma pitada de astúcia protetora:
- Cheguei tarde, posso entrar?
- Com certeza! Ninguém fica aqui com dor de cabeça. Anda daí!
      E logo se levanta a voz solidária para abrir caminho na multidão:
- Pessoal, abram alas! Esta rapariga está indisposta, tem de entrar já senão desmaia! Podes seguir, menina.
      Até os atletas cansados têm passe direto no coração da gerência:
- Estive nos torneios e só cheguei agora, posso entrar?
- Com certeza, campeão! Avança para a fila da frente e bom apetite!

      Por fim, no fim da linha de montagem da malandrice, chegam os cromos mais deliciosos do recreio. Sorrateiros, finórios, malandrecos por natureza. Caminham nas pontas dos pés, tentando passar invisíveis aos olhos do mundo, exibindo com orgulho um ar de quem já tirou uma licenciatura com distinção na nobre arte de passar à frente de todos. Bolas vermelhos? Que é isso?

      Assim se escreve, todos os dias, este enredo delicioso. Entre furas, desculpas e gargalhadas, a estratégia varia, mas o destino é o mesmo. E quando os trezentos guerreiros terminam a sua jornada e o último prato é servido, a paz regressa finalmente ao recreio. Afinal, a poesia da vida é simples: de barriga cheia, o mundo é um lugar muito melhor.

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