Nos confins de junho, quando o verão espreita e o
calor aperta, a ASM sofria uma
metamorfose digna de passarela: guardavam-se os formalismos e vestiam-se
os aventais - uma sinfonia visual de padrões geométricos, bonecos bizarros e
cores berrantes que fariam inveja a qualquer estilista de Paris. Atrás das
cortinas, a equipa das compras já tinha tecido a sua magia secreta, ligando
para meio mundo para garantir que aquele dia ficasse gravado na memória (e no
estômago) de todos.
No dia D, decretado pela diretora, a manhã começava
com um compasso de urgência poética. À prova punha-se o equipamento da cozinha,
num teste de fogo digno de alta competição: tudo era preparado, separado, partido e empratado com a precisão
de cirurgiões e o caos de uma comédia pastelão. Ao meio-dia, servia-se o almoço
para os verdadeiros bravos da culinária - um banquete rápido antes do merecido
descanso guerreiro.
No princípio da tarde, quando a força do calor parecia
querer derreter as ideias, começava a romaria. Chegavam os primeiros fregueses,
vindos de todos os quadrantes, numa invasão alegre e barulhenta de gente das
escolas. Era um entra e sai de braços carregados: reajustavam-se mesas, arrastavam-se cadeiras, estendiam-se toalhas
e voavam talheres. No meio da azáfama, as bandeirinhas coloridas esvoaçavam
freneticamente, bailando ao ritmo de uma nortada teimosa, enquanto os testes de
luzes piscavam como pirilampos festivos.
E ali, imperturbável no meio do furacão, o senhor José
cuidava do fogo. Preparava as brasas
com a calma sagrada de quem sabe que o tempo é o melhor tempero.
Então, o espetáculo começava! Entravam em cena as
sardinhas prateadas, o carapau orgulhoso, os pimentos a perfumar o ar e as
minis bem frescas a estalar. Havia pão fofo, chouriço que chorava gordura na
brasa e o sal q.b. lançado com a mestria de um artista. Diante de dois
assadores e muitas grelhas novinhas em folha, lutava-se contra o fogo: água para cima delas para acalmar as chamas e
atiçar o apetite! Cada um servia-se sem pressas, partilhando conversas
salpicadas de riso.
Para o grande final, guardava-se o doce mistério das
sobremesas e a derradeira prova de fogo: o karaoke. Ali, entre notas agudas falhadas e refrões cantados a
plenos pulmões, nasceram grandes artistas da nossa praça!
Quando a noite finalmente fechava as suas cortinas
escuras, o feitiço quebrava-se com doçura. Como formigas operárias e
organizadas, todos davam as mãos: arrumava-se a mobília, limpava-se o
refeitório e o bloco um. Em fila, tudo regressava ao seu lugar de origem, mas
já nada era igual.
Para o ano, a receita será a mesma. Porque, no fundo,
todos sabemos que vale a pena parar o tempo para celebrar a vida com estes companheiros de viagem que transformam
o ensino numa linda e eterna poesia.

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