Se ao
passar te vejo, o meu dia ganha cor; cantas e não te cansas, estás sempre
afinado. Saltas com a leveza de quem humilha qualquer atleta de outra galáxia e
voas com a audácia de quem é dono do céu. Se amas esta natureza urbana tanto
como eu, que mais posso dizer de ti, criatura magnífica?
Tu corres
e bates em retirada para baixo de um carro como um agente secreto em missão.
Encaras ventos e tempestades no ar com asas de coragem, mas o teu verdadeiro
segredo é outro: como é que nunca te perdes neste labirinto de betão? Apanho-te
tantas vezes no flagrante delito, a comer pão com azeitonas fora de horas, numa
ceia clandestina e livre de regras. Há momentos em que o mundo para e somos só
nós contra o caos do trânsito — eu aqui sentado no carro a ver o tempo correr e
tu, no teu posto de vigia, a controlar as ruas como um segurança reformado.
A verdade é que hoje já és a alma e a mascote oficial desta cidade; sem o teu caos e a tua melodia, isto seria uma pasmaceira cinzenta e sem metade da piada. Tenho-te um carinho imenso, vizinho. Mas vá lá, quando te fores coçar na borracheira perto da minha janela, faz um favor a este teu amigo: enfia a sirene no bolso, guarda o apito no coração por mais uns instantes e deixa-me dormir, caramba, pelo menos até às oito!
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