26/09/26

O VOO SILENCIOSO DAS BORBOLETAS

 

      Eis as borboletas, insetos que desenham o futuro de todos nós. Não habitam o espaço; fundam-no em cada desvio, cruzando silêncios antigos com cores que a terra ainda tenta decifrar. Onde o olhar humano vê fragilidade, reside a engenharia mais perfeita do cosmos: uma arquitetura de luz que sustenta o fôlego de outros mundos.

      Ignoram a arrogância dos muros. Desfazem a ilusão das janelas com a pressa de quem conhece a eternidade. São a geometria sagrada que corrige os nossos enganos mais pesados com a leveza de um pouso. Não há no universo toque mais absoluto do que o beijo que oferecem às flores — uma ternura exata, sem desperdício, que alimenta a própria engrenagem da vida.

      Se o tempo lhes nega as teclas de um piano, a sua própria existência é a sinfonia que os homens passam séculos a tentar traduzir. Descansam na chuva com a dignidade dos soberanos e voam na sombra como se o infinito fosse o seu pátio de recreio.

      Não há voo pequeno. Se uma destas asas sagradas palpita no Japão, a espinha dorsal do planeta curva-se em reverência. A sua ausência não seria um vazio na paisagem; seria a mudez definitiva da beleza. Precisamos da vossa viagem contínua, da vossa harmonia que costura as feridas do mundo.

      Sem vós, seríamos apenas estátuas de argila à espera de um sopro que nunca chegaria.

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