
Rádio Fun ASM, em mais uma emissão selvagem, poderosa
e familiar, fiquem com o Tininho, diretamente da Beira Baixa.
Olá crianças, futuros agentes secretos que sonhais
nesta sintonia mágica! Daqui o vosso locutor favorito, o Javali Tininho, a
espalhar charme e amor pelas colunas do vosso telemóvel.
Para vós, a história da minha vida que, verdade seja
dita, só tem quatro meses, mas já dava para uma série de TV. Preparem as
bochechas para rir, mas mantenham um olho bem aberto, porque o programa de hoje
é sobre a Grande Mudança da Minha Família Javali... e os mistérios que a
rodeiam!
Tudo começou numa toca lá no topo da Serra da
Gardunha. Éramos quatro irmãos javalizinhos a rebolar na lama, a fazer
concursos de puns e a dar beijinhos de focinho o dia todo! Um amor puro e
pegajoso.
Há três dias, o mistério instalou-se. O meu pai — o
grande Antão, o chefe de família mais destemido, com o faro mais apurado do
universo — olhou para o horizonte de forma dramática. Ele farejou o vento,
sintonizou as orelhas como antenas parabólicas e decretou em tom de filme de
espionagem: “Família, queimem os arquivos e arrumem a mobília. Vamos trocar de
habitação! Rumo ao vale!”
Por que saímos à pressa? O que sabia o meu pai?
Ninguém explicou. E assim fomos, numa caminhada cheia de cantorias desafinadas,
tropeções teatrais e a nítida sensação de estarmos a ser seguidos por esquilos
com segundas intenções.
A descida correu bem e ao fim da tarde tivemos direito
a um momento digno de um spa de cinco estrelas: um banho refrescante na Praia
Fluvial de Castelo Novo, na lindíssima Ribeira de Alpreate! Imaginem a cena:
quatro leitões a dar mergulhos de bomba, a espirrar água e a rir à gargalhada,
enquanto os meus pais trocavam olhares apaixonados na margem. Ou seriam olhares
de código?
E o jantar? Um verdadeiro banquete gourmet!
Encontrámos restos deliciosos junto a um café local. Para nós, aquilo era
comida com três estrelas Michelin. Havia restos de uma sandes de fiambre,
batatas fritas de pacote e um donut mordido. Barriga cheia festejámos!
Depois do jantar, continuámos o nosso passeio
romântico em família até que… pumba! Batemos de frente com o asfalto. Olhei
para a placa e gritei cheio de orgulho: “Soalheira, um quilómetro!”
O meu pai, que além de corpulento é um poço de
sabedoria e teorias da conspiração, testou-me: “Tininho, para onde vai esta
estrada?” E eu, armado em GPS da floresta: “Para a Soalheira, meu querido pai!”
A minha mãe, sempre com aquele coração protetor e
cheio de mimo, avisou logo: “Meus amores, devemos ficar aqui, estamos cansados.
Nisto… ZUMMMM! Aparece um carro minúsculo, um carro
branco pequeno, com uns faróis tão fortes que pareciam dois sóis zangados!
Ficámos todos tão encadeados e borrados de medo que começámos a chorar em coro:
“Buaaa! O monstro da estrada vai-nos capturar e fazer experiências com os
nossos rabinhos encaracolados!”
Para nos protegermos do perigo estranho, fizemos um
mega "abraço de grupo" gigante e aninhámo-nos num buraco quentinho,
mesmo junto a uma árvore.
Para acalmar os corações alvoraçados, pedi ao meu pai:
“Pai, conta-nos uma história de encantar sobre este sítio para afastar os
demónios rodoviários?”
O meu pai, com aquela voz grave que cura qualquer
susto e estabiliza a inflação, começou a contar que o nosso tetravô javali já
tinha estado ali há 100 anos, numa missão ultrassecreta! Uma lenda transmitida
de geração em geração. E revelou o mapa do tesouro:
“Se seguirmos esta estrada, encontramos a ribeira.
Subimos mais um bocadinho e chegamos aos Barreiros… o paraíso das couves
crocantes e dos feijões frades de cara verde!”
Ouvir a palavra "couves" foi melhor do que
ouvir o despertador! Acordámos todos com os olhos a brilhar de fome e amor por
raízes! O plano estava traçado: amanhã vamos assaltar (com muito carinho e
passos de ninja) os feijões da Tia Vina e as couves da Tia Lela. “Elas
vão ficar tão felizes, quando virem as nossas visitas surpresa!”, riu-se o meu
pai com uma ironia maravilhosa. Mas quem eram realmente estas tias?
Nisto, o meu irmão mais pequenino, o Toninho, com a
lágrima no olho e o focinho a tremer, choramingou: “Buááá… eu não quero ir aos
Barreiros! E se está lá o Noddy ou o Pato Donald? Eu tenho pânico desses gajos!
Aquilo não são aves normais, e o outro conduz sem carta!”
O meu pai, mantendo a postura de psicólogo e agente do
FBI, respondeu com a maior serenidade do mundo: “Cala-te, meu amor, podes dormir
descansado. Fontes seguras da Administração Interna confirmaram-me que o Noddy
e o Pato Donald foram de férias para o Algarve!” Que alívio!
E com esta revelação bombástica do meu pai, termina a
minha crónica desta noite estrelada e cheia de conspirações. Olho para o céu e,
pela posição perfeita das Três Marias, da Estrela Polar e daquele satélite
esquisito que nos anda a filmar, confirmo: é meia-noite em ponto!
Durmam bem, amanhã o sol vai nascer para mais um dia
de aventuras, mistérios e couves crocantes, lá perto da casa!
Milhões de beijinhos, com baba amorosa! Pai, desliga a
emissão, eles estão a rastrear o sinal!