Notícias do passado - 15
Fizesse o tempo que fizesse - sob o sol ardente do
verão ou a geada cortante das manhãs de inverno -, aquelas escadas bem inclinadas eram o verdadeiro centro do universo. Todos os dias, mal o relógio ditava a
trégua das aulas, a escadaria enchia-se de baixo a cima por uma maré de alunos
e alunas, numa coreografia perfeita de cotovelos, pastas e risos. Era ali o
poiso sagrado. Mas, ai da ordem! Quando a campainha tocava o recolher, a
corrida desenfreada para as filas deixava para trás o rasto do crime: as
migalhas dos lanches trazidos de casa e uma revoada poética de guardanapos
do bar, esvoaçando ao vento como pequenas pombas de papel.
Aqueles degraus funcionavam como o confessionário
oficial e o refúgio dos inconformados. Sentavam-se ali os espíritos livres, sem
qualquer disposição para serem enclausurados por mais cinquenta minutos de
preleção académica, lado a lado com os tristes sofredores das dores do jovem
coração amoroso, que ali curavam os seus primeiros desgostos românticos. Para
aquela juventude, o termómetro pouco importava! O que era verdadeiramente
excelente era a calorosa companhia dos amigos, a partilha sagrada das sandes, o
pânico partilhado com as dúvidas de última hora para os testes e, claro, os
comentários maliciosos - mas cheios de charme - sobre quem passava, fosse um
professor apressado ou um par mais distraído.
Era também ali que a música ganhava vida, timidamente,
nas colunas portáteis que ecoavam em tom menor, servindo de banda sonora para
as mais sublimes audácias: o lançamento preciso e galante de uma baga de
árvore, disparada com pontaria de mestre para acertar no casaco de uma rapariga
simpática, arrancando-lhe aquele sorriso que iluminava o pátio.
Por entre a multidão dos degraus, passavam também os
atletas desesperados, correndo na procura de uma bola de futebol — que tantas
vezes já estava cheia de furos ou mais gasta do que um velho trapo de cozinha.
Enquanto uns corriam, outros espreguiçavam-se com a preguiça sublime dos
que acordaram cansados. E quando o turbilhão finalmente passava e o
silêncio regressava ao pátio, entravam em cena os donos legítimos da escadaria:
os pardais da escola, que aterravam mansamente, aguardando a solidão para
banquetear-se com os preciosos bocadinhos de pão esquecidos na pressa do saber.

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