31/10/26

ESCADAS PARA AS OLIVEIRAS: O MELHOR MIRADOURO

     Notícias do passado - 15

      Fizesse o tempo que fizesse - sob o sol ardente do verão ou a geada cortante das manhãs de inverno -, aquelas escadas bem inclinadas eram o verdadeiro centro do universo. Todos os dias, mal o relógio ditava a trégua das aulas, a escadaria enchia-se de baixo a cima por uma maré de alunos e alunas, numa coreografia perfeita de cotovelos, pastas e risos. Era ali o poiso sagrado. Mas, ai da ordem! Quando a campainha tocava o recolher, a corrida desenfreada para as filas deixava para trás o rasto do crime: as migalhas dos lanches trazidos de casa e uma revoada poética de guardanapos do bar, esvoaçando ao vento como pequenas pombas de papel.

      Aqueles degraus funcionavam como o confessionário oficial e o refúgio dos inconformados. Sentavam-se ali os espíritos livres, sem qualquer disposição para serem enclausurados por mais cinquenta minutos de preleção académica, lado a lado com os tristes sofredores das dores do jovem coração amoroso, que ali curavam os seus primeiros desgostos românticos. Para aquela juventude, o termómetro pouco importava! O que era verdadeiramente excelente era a calorosa companhia dos amigos, a partilha sagrada das sandes, o pânico partilhado com as dúvidas de última hora para os testes e, claro, os comentários maliciosos - mas cheios de charme - sobre quem passava, fosse um professor apressado ou um par mais distraído.

      Era também ali que a música ganhava vida, timidamente, nas colunas portáteis que ecoavam em tom menor, servindo de banda sonora para as mais sublimes audácias: o lançamento preciso e galante de uma baga de árvore, disparada com pontaria de mestre para acertar no casaco de uma rapariga simpática, arrancando-lhe aquele sorriso que iluminava o pátio.

      Por entre a multidão dos degraus, passavam também os atletas desesperados, correndo na procura de uma bola de futebol — que tantas vezes já estava cheia de furos ou mais gasta do que um velho trapo de cozinha. Enquanto uns corriam, outros espreguiçavam-se com a preguiça sublime dos que acordaram cansados. E quando o turbilhão finalmente passava e o silêncio regressava ao pátio, entravam em cena os donos legítimos da escadaria: os pardais da escola, que aterravam mansamente, aguardando a solidão para banquetear-se com os preciosos bocadinhos de pão esquecidos na pressa do saber.

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