29/10/26

OLIVEIRAS CENTENÁRIAS: AZEITE PURO

 Notícias do passado - 14

      Corria um ano daqueles de feição mais fustigada, onde o frio e o cinzento teimavam em pintar as manhãs, e os alunos lá iam para as aulas de Formação Cívica. Ditava o protocolo que o Diretor de Turma assumisse a batuta nesses cinquenta minutos regulamentares. Ali, entre quatro paredes enfadonhas, debatiam-se os queixumes do quotidiano e os grandes temas da humanidade, num compasso idêntico a qualquer outra lição de Matemática. Era, contas feitas, apenas mais um intervalo disfarçado de burocracia, onde os bocejos faziam eco na mesma sala de sempre.

      Mas eis que o destino, esse grande mestre-de-obras, bateu à porta com a chegada do outono! Nos ramos das trinta oliveiras que guardam o recinto desta nossa ilustre escola, a azeitona vestiu o seu xaile escuro, anunciando que o seu fado estava traçado: ir parar ao chão e perder-se no esquecimento do pó.

      Valeu-nos a visão patriótica e o estômago previdente de uma Senhora Diretora de Turma! Horrorizada com o desperdício de tão nobre e valioso fruto — pilar da nossa dieta e bálsamo virtuoso para o bem-estar do homem —, a docente lançou um grito de revolta agrícola. Aprovou-se, com a devida vénia do conselho, a mais audaz das operações: mobilizar a mocidade, turma a turma, aproveitando cada nesga de tempo disponível!

      Os dias gélidos daquela estação transformaram-se numa autêntica romaria. Trocaram-se os cadernos pelas sacas e as sebentas pelo varejo poético. A juventude, num ápice, descobriu a felicidade da terra, percebendo no terreno que a verdadeira cidadania se colhe à mão. Da árvore voaram as azeitonas direitinhas ao lagar e, no regresso triunfal, fez-se luz: o ouro líquido chegou engarrafado em frascos de vidro de cinquenta centilitros!

      Diz o boato popular, que corre sussurrado pelos corredores, que lá no canto mais obscuro do armário da Direção ainda repousam algumas dessas relíquias históricas. Completamente fora de prazo, é certo, mas guardando para sempre o perfume daquele outono em que a escola soube a azeite!

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