27/10/26

SR. MINISTRO DA EDUCAÇÃO, NO PAÍS DAS CARTOLINAS

 Notícias do passado - 13

     Ainda no milénio passado (porque "século" é demasiado modesto para tamanha efeméride), a nossa querida escola vestiu-se de gala para receber o então Ministro da Educação, o Dr. Roberto Carneiro.

     Não era um dia qualquer; era um festival de vaidades académicas e gesso pintado. A escola transbordava de cartolinas, colagens e trabalhos dos alunos - alguns tão abstratos que roçavam a genialidade incompreendida. Todos os presentes se tinham fardado com o seu melhor fato de domingo (em pleno dia de semana), exibindo sorrisos esculpidos pela ocasião e uma disposição invulgarmente radiante.

     O sol, esse grande cúmplice, brilhava no céu nobre do meio-dia quando o momento apoteótico aconteceu. O portão de ferro, com o seu orgulhoso metro de altura, deslizou sobre os carris com um ranger quase teatral, abrindo caminho à comitiva governamental.

     E quem guardava este portal da sabedoria? Na portaria, não estava o habitual Senhor José - embora ele rondasse a zona, qual guarda-costas informal, ostentando uma cabeleira farta e um bigode de tal ordem majestoso que faria chorar de inveja qualquer concorrente de um campeonato nacional de fardas faciais.

     As senhoras professoras, em riste e num frenesim de pura fidalguia, aguardavam a sumidade. O Ministro entrou, banhado por uma cascata de sorrisos que encadeavam e salamaleques de gratidão. Com o garbo de quem inspeciona um palácio, Sua Excelência percorreu os corredores, espreitou o giz e as sebentas de algumas salas e reuniu-se com a Direção. Alguém, munido de uma esferográfica frenética, tomava notas sagradas para registar o momento e salvar a escola da decadência que a assolava.

     O tempo passou — ao ritmo burocrático que Deus escreve nas estrelas. Vieram os projetos, esmiuçaram-se as tertúlias dos arquitetos e, finalmente, as profecias concretizaram-se nas últimas grandes obras de fundo que esta linda instituição haveria de ver.

     E onde caiu a grande revolução arquitetónica? No coração da modernidade: o saneamento básico. O recreio mudou para sempre, e a escola despediu-se, poeticamente, do cheiro a passado para abraçar o perfume do progresso (e dos canos novos).

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