19/09/26

CHIATA A CIGARRA QUE TEM UMA AMIGDALITE

       


      Alô, alô! Som, um, dois, três... Estão a ouvir-me bem? OK, perfeito.

      Chamo-me Chiata, e sou a diva oficial do Ribatejo, a cigarra com o subwoofer mais potente de todo o bairro dos Esteiros! Se há barulho neste quarteirão, a culpa é minha.
      Mas hoje o assunto é sério, malta. Estou oficialmente de baixa médica. Apanhei uma daquelas correntes de ar manhosas no último fim de semana e lixei o címbalo. Sim, o meu instrumento de trabalho, aquela caixinha de som que tenho no abdómen (e não o "símbolo" da paz, que eu de pacífica não tenho nada!). Diagnóstico do veterinário: proibida de apanhar sol direto e — a pior parte — zero cogumelos na minha dieta. Uma tragédia.
      Eu, que nasci para soltar o vozeirão pelos vales e meter inveja às colunas de som dos tunings, estou aqui limitada. É que cantar também é a minha forma de viver, sabem? Tenho de dar sinal de vida àqueles namorados distraídos que se esquecem de mim à primeira oportunidade. E a vida de artista não é fácil: o pessoal pensa que é só festa, mas eu moro literalmente enfiada nos troncos das árvores. Uma escuridão total! Nem vejo o azul do céu nem o charme das folhas a cair agora que o outono decidiu entrar sem pedir licença.
      Mas pronto, fofos, a vida é isto. Eu nasci para cantar, tu nasceste para sorrir, aquele ali nasceu para jogar à bola e a outra para ser médica e tratar-me das amigdalites (ou dos címbalos). Cada um com o seu dom! O importante é seguir em frente com a corda toda e acreditar que amanhã o concerto vai ser melhor.
      Vou ali emborcar um prato cheio de seiva bem fresquinha para ver se recupero a voz. E vocês, juizinho: não se esqueçam de comer a fruta!
      Beijos subterrâneos e altamente estridentes da vossa cigarra favorita (e mais simpática) do Ribatejo!

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