18/09/26

UM PASSEIO NO CÉU COM UMA ÁGUIA E UM COELHO

       ÁGUIA:

      Olá, amigos ouvintes da Rádio Fun ASM! Daqui fala a vossa comandante dos céus, emitindo em direto e em voo supersónico diretamente das alturas da albufeira de Alqueva, no nosso belíssimo Alentejo. O vento escreve poemas nas minhas penas e o mundo lá em baixo parece um tapete de ouro e água. Mas esperem... estão a ouvir este ruído de dentes a bater? É o meu copiloto forçado! Comigo, bem preso nas minhas garras — para seu próprio bem —, viaja o meu grande amigo de longa data, o coelho Serôdio. Serôdio, diz olá aos microfones da rádio, mostra o teu carisma!
      SERÔDIO:
      (Voz trémula, super aguda, a gaguejar com o vento a entrar-lhe pela boca)
      O-o-olá pessoal... Se alguém estiver a ouvir isto... por favor, chamem a proteção animal! Isto não são vertigens malucas, isto é um rapto aéreo! Eu sou um animal rasteiro, pá! O meu destino é escavar buracos na terra, não é andar aqui a fazer looping no ar! Alguém que mande parar o carrossel que eu quero sair! Já chega!
      ÁGUIA:
      (Ri-se, uma gargalhada imperial)
      Deixa-te de dramas, Serôdio! Olha o espetáculo! Agora continuamos para a direita, inclinando as asas, e entramos em voo raso sobre estas águas quase cristalinas. E agora... vejam bem isto... vou travar com as asas! Sintam o atrito a brincar com a nossa velocidade, a adrenalina pura! Não sentem a loucura maravilhosa de ser livre, sem amarras? É a poesia do espaço!
      SERÔDIO:
      (A gritar, em pânico total)
       Eu só sinto o meu estômago a subir pela garganta acima! Travar com as asas?! Tu chamas-lhe "poesia", eu chamo-lhe quase-acidente na autoestrada do céu! A única amarra que eu quero é um cinto de segurança de sete pontos e os pés assentes no xisto alentejano!
      ÁGUIA:
      Que alma tão pouco artística, Serôdio! Olhem, meus caros ouvintes, a verdade é que me saiu o EuroMilhões quando saí da casca do ovo. Foi aí que descobri que o meu destino era voar, dominar todas as alturas e todos os tempos. Desafiar a velocidade, assustar as próprias sombras e voar com toda a liberdade... isto sim, é a pura felicidade! É uma pena não poder transmitir imagens para vós, que estais aí sentados no sofá a queimar tempo com os olhos colados aos ecrãs. Vamos, saiam para o ar puro! Venham brincar, transpirar, arriscar e renascer a cada momento! A vida é para ser vivida com paixão, com aquilo que temos à nossa disposição, amando a natureza! Cá de cima, isto é simplesmente valioso. É ou não é, Serôdio? Dá aí a tua visão profunda sobre a paisagem!
      SERÔDIO:
      (A fungar, a tentar olhar para baixo e a fechar logo os olhos)
      É lindíssimo, sim senhora... vejo perfeitamente o meu funeral lá em baixo, desenhado na berma da albufeira! Olha lá, ó filósofa do ar, a tua "visão profunda" já viu as horas? O meu relógio biológico não quer saber do Euro Milhões da tua casca, quer é saber do lanche! Já está mais do que na hora da cenoura!
      ÁGUIA:
      Ainda é cedo para comer, meu caro roedor de estômago fraco! Onde está o teu espírito de aventura? Agora que apanhámos uma corrente térmica fantástica, vamos esticar o voo até Beja, só para ver se o castelo ainda está no mesmo sítio ou se já derreteu com o sol do Alentejo. Agarra-te bem a esses teus bigodes!
      SERÔDIO:
      (Choramingando)
      Até Beja?! Mas o castelo tem paredes de pedra, não sai dali! Nós é que nos vamos estampar contra a torre de menagem! Ai, a minha vidinha... se eu sobreviver a isto, juro que me converto ao vegetarianismo estrito e nunca mais subo a um banco de jardim!
      ÁGUIA:
      (Dando um grito de voo majestoso)
Despeço-me de todos vós a 100 quilómetros por hora, feliz por ter falado convosco! Abro as minhas asas douradas em agradecimento ao convite da vossa fantástica rádio. Biquinhos voadores para todos! Despede-te do público, Serôdio!
      SERÔDIO:
      (Em voz muito rápida e desesperada)
       Um abraço apertado para quem nos ouve! E se alguém encontrar um coelho castanho a cair do céu de paraquedas improvisado com as próprias orelhas... apanhem-me, por amooor !

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