11/09/26

FÁFÁ O CÃO QUE QUE NASCEU PARA SER LIVRE

    


      Olá, ouvintes amados! Hoje o microfone é meu, e venho espalhar o calor do meu coração para vos falar de um dia comum na nossa vila mais fofinha. Por aqui, chamam-me Fáfá com todo o carinho do mundo — ou, às vezes, soltam um “sai daqui” apressado, mas esses são apenas os que ainda não aprenderam a arte de amar.

      Vira a esquina, salta a calçada,
      Sou o Fáfá da hora parada!
      Não tenho posses, não tenho dinheiro,
      Mas sou o dono do mundo inteiro!
      Dizem por aí que sou um rafeiro. É verdade! Não trago moedas no bolso, até porque bolso não tenho, mas trago um olfato mágico que nunca me deixa desistir. É ele que me guia para procurar o que realmente importa: o pão para comer, o afeto para amar e o céu para sonhar.
      A fome? Ah, a fome é o meu despertador matinal! O silêncio da vila é o meu convite para passear. Para mim, a alegria e a tristeza são nuvens que passam; o que fica mesmo no meu peito é uma gratidão imensa por estar vivo. Fui desenhado assim, o mais pequenino de uma ninhada de oito. Mas a minha mãe… ah, a minha mãe era genial! Cheia de bom senso, lambeu-me as orelhas e desejou-me as maiores sortes do mundo. Ainda ouço o seu sussurro de fada: "Procura, meu moço, procura com fé, que o mundo te espera no caminho que é."
      Palavras benditas que o vento levou,
      No mapa da vida, o meu rumo traçou.
      Procuro o abraço, procuro o olhar,
      Nasci para ser livre e para amar!
      Passo o dia a explorar. Nem sempre encontro um petisco, é facto, mas desvendo os segredos mais deliciosos e os enredos mais engraçados que se passam à minha volta. Às vezes, confesso, imagino como seria ter um dono para me ensinar truques… mas logo me lembro de que a rotina não cabe nas minhas patas. Eu nasci para ser livre! Para dormir num aposento perdido no tempo e ser abraçado pelo acaso.
      Uns dão-me festas e um prato cheio; outros, mais resmungões, estendem o pé. Há quem acredite que nós, os patudos da rua, não temos sentimentos. Que grande engano! Eu sei perfeitamente quem me estima, quem me sorri e quem me estende a mão. O meu coração é um arquivo de afetos!
      Quando eu crescer — ou quando o vento decidir —, irei voar para outras paragens. Vou dobrar a próxima esquina com a força de um poema eterno, daqueles que a gente nunca mais esquece.
      E agora, lanço o desafio para vocês aí, refastelados nessa cadeira macia: de que lado escolhem estar nas horas que custam a passar? Vamos espalhar carinho hoje?

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